Há cerca de 114 anos atrás, os negros foram “libertados” da escravidão.
“Nada temos a comemorar nesse 13 de maio. O Dia da assinatura da Lei Áurea, bem como a maioria das nossas datas cívicas, foi introduzido pela elite branca, não celebrando em absoluto nenhuma conquista popular, nenhuma transformação social verdadeira. Serve, principalmente, para a elite branca lembrar- se desse seu ato de ”magnanimidade“, limpando- se de qualquer responsabilidade direta ou indireta pela situação social dos negros no passado e no presente.
Além de inferiorizá- los, colocando uma mulher branca como sua ”redentora“ (como se a liberdade não fosse um direito inato a todos os homens), ainda quer incutir nos negros um certo sentimento de gratidão eterna. De ”áurea“ essa lei não teve nada.
Foi com Zumbi dos Palmares que os negros verdadeiramente conquistaram a liberdade, e não a receberam como esmola de uma Princesa branca. Palmares é o verdadeiro símbolo de liberdade e mudança social. Foi onde os negros tornaram- se senhores de seus destinos e recuperaram a dignidade humana. Mas dentro desse nosso país de preconceito velado, colocar com ”negro fujão“ como um dos nossos heróis nacionais parece algo impossível, infelizmente....
A escravidão é uma aberração quase tão antiga quanto foram as guerras. De maneira geral, os escravos eram os derrotados nas guerras ou os muito pobres que se vendiam, por contrato, para servir a seus amos por períodos de tempo variáveis. Muitos dos nossos ancestrais europeus , ”caucasianos“, já devem ter sido escravos e servos. A escravidão era o resultado imediato de um esforço de guerra ou da miséria absoluta, jamais antes havia sido um esforço empresarial de tal porte que transplantou mais de 5 milhões de pessoas de um continente para outro.Reis, rainhas, príncipes, princesas, os mais bonitos, os mais fortes e mais saudáveis foram arrancados de suas comunidades na África, postos em barcos imundos e trazidos para o Brasil, somente para servir de engrenagem, de combustível, não a um esforço colonizador, mas o que é pior, a um esforço meramente mercantil, que visava somente o lucro e nada mais. A cor da pele justificava esse ato, até mesmo para a Igreja.
Aqui chegando, os que sobreviviam a travessia eram logo separados do seu grupo lingüístico e cultural africano e misturados com outros de tribos diversas para que não se comunicassem, não se reestruturassem dentro da colônia canavieira. Para terem um veículo comum de comunicação foram aprendendo o português dos capatazes e o Brasil, que até então falava português nas rodas da elite e um tupy-português na massa do povo, começou a falar uma única língua. Por ironia, os escravos acabaram ”aportuguesando“ o falar da massa popular no Brasil, acabaram dando uma língua nacional, uma língua materna e única a todos os brasileiros, pobres e ricos: a língua portuguesa como veículo de comunicação único e nacional.
A crueldade desse sistema inumano culmina no final do século passado. Quando a miséria assola a Europa e nossos antepassados europeus se tornam uma mão de obra mais barata para a elite empresarial nacional do que a manutenção dos escravos. Nesse momento, o único valor que o negro tinha, que era sua força de trabalho, desapareceu e essa mesma elite que havia destruído suas identidades e violentado suas dignidades, precisava agora livrar- se deles.
A Lei Áurea cumpriu esse papel!
Os negros já não tinham qualquer vínculo mais forte com a África de seus avós, eram brasileiros, nascidos aqui, criados e treinados para servir de força de trabalho e nada mais. A Lei da Princesa Isabel, a ”Redentora“, simplesmente retirou dos senhores de escravo qualquer eventual obrigação que tinham para com esse povo. Não veio revestida de nenhum projeto de reintegração desses ex-escravos à malha econômica, nenhum apoio para que pudessem reestruturar suas famílias já na condição de homens livres e cidadãos plenos nesse país. Ficaram ao deus-dará. Foi uma cruel irresponsabilidade... Resultado: expulsos das fazendas e após vagarem pelas estradas foram acabando na periferia das cidades, criando nossas primeiras favelas e vivendo de pequenos e esporádicos trabalhos, normalmente braçais.
Esse ato foi tão funesto, tão avassalador e de envergadura tão ampla que a maioria dos descendentes desses ex-escravos, mais de um século depois, ainda vive em condição muito semelhante: nas periferias, de trabalhos esporádicos e lutando para serem contextualizados com justiça, dignidade e respeito no nosso tecido social.A escravidão e sua abolição, feita muito mais para os brancos que para os negros em si, formam duas das maiores máculas e injustiças que esse país já foi autor. Nossa dívida, enquanto nação, para com esse povo africano, que se abrasileirou e formou o Brasil é imensurável. Eles, que aqui vieram para ser o combustível consumível e descartável dos engenhos e fazendas, tornaram- se o cimento forte sobre o qual se sustenta o que hoje tão orgulhosamente chamamos de cultura brasileira. Entre a Princesa Isabel e Zumbi dos Palmares, eu sou muito mais Zumbi. E você?”
Gilson Bicudo
Professor de Idiomas
(negritos meus, viu nicodemos!?)
Olha Nicodemos, você ainda não me informou a fonte. De onde você tirou que em Londrina apenas 15% (o que também não é um número desprezível) são negros?
Se hoje você tem condições financeiras para estudar, mãos a obra rapaz. Nada de ficar se lamuriando. A vida da maioria dos negros não dá horizontes para que eles façam isso nem depois de grandes. Muitas vezes até por insuficiência nutricional, porque não sei se você sabe, mas se uma criança não for muito bem alimentada até o 5º ano de vida, “babaus”, vai ter problemas de intelecto para sempre.
Não acho que a geração dos excluídos que se foda, não! Tanto que quem me conhece sabe que sempre defendi a universidade pública, gratuita e de qualidade. Levando em consideração o texto acima do professor, em especial as partes que negritei, a dívida primeiro é com eles que além de tudo sofrem a discriminação racial às escondidas. Os 25 milhões de descendentes de escravos também estarão nesta cota sim. Não quer dizer que haverá 25 milhões de vagas para eles nas universidades. Quer dizer que eles poderão concorrer a estas vagas reservadas para os negros. Lembra que eu disse antes no blog do Leandro? “O projeto não prevê que negros não precisem estudar para freqüentar a universidade. Ele vai disputar sim com outros negros e os melhores entrarão.”Acho que respondi por inteiro o que você me perguntou. Infelizmente sinto que você foge de alguns questionamentos meus. São 126 funcs. em seu serviço. Perfeito, então você não é autônomo. Responda o resto agora: quantos (dos negros, que segundo você mesmo disse, não chegam a ser 15%, parâmetro que parece achar mais do que suficiente para que eles continuem abaixo de nós branquinhos) têm mais tempo de casa do que você? Quantos são seus superiores? Quantos ganham mais do que você? Só me reporto aos homens neste caso, porque é desnecessário lembrar que negras parecem que só servem para limpar nossas privadas mesmo, porque a discriminação contra elas é mais vil ainda.
A “brincadeira” racista, creia-me, não é do meu feitio, apesar de conhecê-las. Foi apenas para reforçar o que eu ia dizer sobre a condição dos negros em nossa sociedade. Para mostrar o quanto, no fundo, nossa sociedade é racista e trata mal os negros. Não é vergonha nenhuma ser pobre ou miserável. Portanto não é correto que esmola recebe quem é incapaz. Esmola é para quem é pobre. E nem todo pobre é incapaz, principalmente pobres negros, que são discriminados ainda por cima.
Você também disse: “Se você lutar para que o estudo básico seja restaurado os negros terão mais acesso a oportunidades.” Eu te perguntei como fazer isso na mensagem anterior. Como? Também concordo com você. Também concordo que uma sociedade equilibrada é melhor para todos, até escrevi isso antes de você que talvez não tenha percebido. Mas e daí, Temos milhares de negros inferiorizados aí agora. Estes vão esperar porque é um privilégio criar cotas. Seus filhos e talvez seus netos é que terão oportunidade de concorrer em igualdade de condições conosco?
Você também disse: “Uma lei obrigando as universidades pagas a terem escolas básicas nas favelas seria o começo da solução.” Também concordo e acho, sinceramente, lindo isso. Só em londrina são mais de cinqüenta favelas. Mesmo com muito boa vontade dos empresários do setor, é inviável financeiramente. Imagina nos grandes centros onde, além de existirem muito mais favelas, as populações sào imensas (só para sua informação: a favela da Rocinha é mais populosa que Londrina).
Mas primeiro os negros que esperem. nada de privilégios para eles. Afinal, os vizinhos brancos e pobres deles também merecem um lugar ao sol. Nada de prioridades. Depois da injustiça histórica que os brancos europeus comteram com eles e que terminou há apenas 114 anos (pouco mais de um século) esta geração que aí está e que teve avós e avôs libertos (lei do ventre livre) mas viram seus pais escravizados, terão que esperar. As crianças pensam como galinhas, porque se acham parecidas com a Xuxa, seu referencial de pessoa vencedora. As bonecas são loirinhas, os super heróis são brancos. Não é mostrado para as crianças negras Zumbi dos Palmares, Miltom Campos - maior geógrafo do Brasil. Só mostram Pelé, maior racista que nunca se engajou na causa negra, mas já namorou a Xuxa e só reconheceu filhos de relações com brancas ricas. A Sandra, de Santos, só foi reconhecida na justiça, porque Pelé não quis que o Brasil soubesse que ele andava comendo uma pretinha empregada doméstica quando ainda nem era famoso.
Nicodemos, já faleiu e repito, negro só vence na vida quando é bom de bola ou de pagode e ainda assim olhe lá! Você não viu a discriminação contra os amigos negros e suburbanos do Ronaldinho em seu condomínio de luxo na Barra da Tijuca?
Concordo com o professor acima. Temos uma dívida moral muito grande com os nossos negros. E acho que são preciso medidas radicais para começar a pagá-las. Se não, ficaremos eternamente dando banho em leitões. Lava, lava e daí cinco minutos está sujo de novo.
Um abraço.
Publicado em 18 de janeiro de 2003 às 23:47 por silvio
Zumbi nunca recebeu nada de graça, lutou para ter., e se estivesse vivo hoje, teria vergonha de receber esta esmola das cotas.
Estes negros que entrarão nas faculdades podem muito bem ser aqueles, como muitos brasileiros, que não tiveram alimentaçao até os cinco anos e, como voce disse,terem problemas de intelecto. Que profissionais eles serão?
Eu não disse que há 25 milhoes de decendentes de escravos. Há hoje, no Brasil, 25 milhões de pessoas escravizadas, brasileiros, (negros e brancos, que para mim não há diferença, pois todos são brasileiros), que segundo a folha de ontem estão em trabalho escravo. Estes terão direito a concorrer às cotas? como, se nem escola eles tem?
Tambem não estou esperando boa vontade dos empresários, estou esperando que haja uma conciência nacional de que todos somos iguais, merecemos as mesmas chances, e se for para fazer leis, que sejam leis para melhorar as condiçoes de vida de TODOS os brasileiros
Voce acha que a lei mudará o conceito dos brancos sobre os negros?
Não. Isto só mudará quando o proprio negro mudar o conceito qu ele tem sobre ele mesmo, deixando de querer ser o coitadinho necessitado de esmolas e começar a buscar o seu espaço como brasileiro e não como uma raça à parte.
Te falei do Dr. Climaco, que venceu sem esmolas. Era negro e foi medico em londrina por muitos anos, atendendo a brancos, negros amarlos azuis, todos sem distinção. Porque ele não quis só tratar dos negros? Poque ele não pensava como negro, ele pensava como brasileiro, ele fazia parte da sociedade
ele não era uma raça paralela.
Temos que tratar os negros como brasileiros e não uma raça a parte. Eles, muito mais do que nós merecem serem chamados de brasileiros, pelo muito qu fizeram a este País.