Faz tempo que estava querendo postar isto. Outro dia li um post do Moraes em que ele agradecia a Deus por não ser um cachorro morto na rua o saco de papel que ele viu e pensou ser um bicho atropelado. Também gosto muito de bichos e gosto muito de quem também gosta. E achei bonito o Moraes declarar isso no Tipos. E bonita também a sua aliviada oração de agradecimento.Achei legal a oração mesmo, apesar de um certo tom de...ironia, talvez (vai entender o enigmático Moraes). Que alívio ele sentiu ao ver que aquela coisa preta na rua não era o corpo de um cachorrinho atropelado e sim um saco de lixo apenas. Já senti esses alívios também. Ando de carro uns 40 quilômetros por dia. Detesto ver animais mortos. Antes ficava arrasado. Hoje já fico mais conformado, afinal se está morto, não está sofrendo, agonizando e esperando morrer à mingua.
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Mas lendo a oração, me identifiquei com aquilo. Não sou só eu que sofro com estas coisas. Tem mais gente igual a mim hehehe!
E acabei pensando em algumas passagens com animais que já tive nestes anos todos.
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Uma das coisas mais remotas que tenho lembrança em relação aos bichos foi na praia. Eu tinha uns cinco ou seis anos. Os pescadores puxavam a rede no arrastão à noite. Quem passeava pela orla parou pra ver. Minha família também. Conforme os peixes foram aparecendo e se debatendo na areia, algumas pessoas já separavam o que queriam para levar. Eu então, sem nada melhor para fazer, peguei um punhado de areia e atirei nas guelras de um pobrezinho. Peguei areia de novo e mandei ver. E de novo, e de novo e de novo... O pobre animal acreditem, parecia tossir. Que horror eu lhe proporcionei. Já estava morrendo sem respirar e um menininho ainda fazendo uma maldade dessas. E o peixe tossia. No começo da coisa, eu sentia um misto de prazer com sarcasmo, mas com algo me travando por dentro. A maldade em judiar do animal era típica das experiências que uma criança vive na infância. Depois que fomos embora, senti uma pena incomensurável do animal. Que remorso!! Chorei amargamente de arrependimento. Cheguei a ter febre. Contei aos meus pais o motivo de tanta tristeza e de tanto choro. Eles tentaram me consolar, afinal ele ia morrer mesmo. Alguns anos mais tarde, quando ficava triste e queria fazer um dengo pra receber os agrados e consolos da mamãe, dizia: “mamãe, e o peixinho?” Ainda me culpava e como não tinha sido punido, aquele animal demorou para sair da minha cabeça.
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Minha casa sempre teve bichos. Tivemos uma gralha, alguns cachorros, um canarinho e muitos, mas muitos gatos.
Um cachorro que marcou nossas vidas foi o Banzé. Apareceu na frente da minha casa e se enfiou em baixo de um carro estacionado. Minha mãe e meu irmão gostaram do tipinho e chamaram. Minha mãe agradou o bicho e lhe deu comida. Ele nunca mais deixou de acompanhá-la. Dormia sobre seus chinelos e avançava em quem a beijava ou se aproximava dela. Não mordia, mas mostrava-se bravinho. Quando ela saia de carro, ele corria quarteirões atrás. Depois voltava melancólico e sem fôlego. Quando minha mãe voltava ele não se continha. Chorava de alegria e se retorcia aos seus pés.
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Na mesma época do Banzé, tinha o Chincho. Um gato vira latas. Era acinzentado claro e rajado e de pelos bem macios. Parecia ter algum parentesco distante com angorás e siameses. Era bonito o gato. E os dois brincavam que se embolavam no chão. Que bons amigos eram o Banzé e o Chincho. O que eu mais gostava era de seus focinhos gelados, que apertava até esquentar.
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O Banzé acabamos dando para uma empregada. Nossa casa não tinha grama, só calçamento. Quando ele chegou, já era um velho. Se saia na rua o cachorro do vizinho, o Pink, lhe aplicava surras homéricas, muito bem vingadas por mim, a base de pedradas por dias a fio. O terreno de nossa casa era aterrado e ficava bem mais acima que o do vizinho. Um muro de mais de três metros dividia os terrenos. Ficava dias bombardeando o cachorro lá de cima, toda vez que ele trucidava o Banzé, que já era um velhote faltando alguns dentes. Uma vez fomos para a praia e não levamos o Banzé. Ficou na casa da empregada. Se deu bem por lá e fazia com o pai dela o que fazia com minha mãe: ia onde o homem ia.
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Fiquei triste e quis o cachorro de volta e acabei me conformando quando a empregada me convenceu que ele estava bem em sua casa e gostava de lá. Depois, ela saiu de casa e nunca mais tivemos notícias do Banzé. O Chincho morreu também. Muito tempo depois que o Banzé foi embora. Simplesmente sumiu e nunca mais voltou. Gatos, pelo menos os nossos, têm disso. Vão morrer longe de casa.
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Meu pai foi viajante. Uma de suas Representadas certa vez foi uma fábrica de espingardas de pressão. Ele andava com uma como parte do mostruário. Acabou ficando para nós. Eu tinha uns 14 anos. Com esta espingarda, matei os únicos três bichos, espontaneamente, na minha vida. Três pardais, e chorei remorciado desesperadamente depois dos assassinatos. Nunca parei pra me perguntar se depois que eu matei o primeiro e me arrependi, por que eu matei mais dois?! E não chorava na hora. Chorava na cama, quando estava tentando dormir... “todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia...” Só que eu não esquecia. E sabia que ia ficar mal na cama, sabia disso o dia todo depois de ter matado. Aquela coisa sei lá, esquisita dentro de mim, uma cobrança...a minha consciência talvez. Só sei que tinha uma coisa que me incomodava depois da matança e que ia aparecer para me cobrar. Depois deste último pardal, que matei em dia diferente e distante dos outros dois, jurei que jamais mataria um animal inocente, imotivadamente outra vez. Na verdade mesmo, eu jurei que nunca mais mataria um bicho na minha vida.
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A única exceção foi um cãozinho que matei por atropelamento, num domingo de madrugada. Descia a Higienópolis rumo ao Gato Ke Ry, fazer o lanche da madrugada. No canteiro da avenida, em frente de onde era o JL, dois cachorrinhos vira-latas brincavam, tipo de pega-pega. Eu nem sabia e nem tinha visto os dois ali. Vinha embalado no Opalão do meu pai. Quando cheguei em cima pude ver que um correu, com aquela cara de riso, para o meio da pista e o outro veio na perseguição. Não deu tempo nem de frear. Peguei o que estava mais a frente no meio do carro, mais ou menos na direção da placa. Não passei com o pneu por cima de seu corpo. O outro não morreu porque conseguiu parar a tempo. Depois de ouvir aquele barulho de cachorro batendo embaixo do carro, olhei pelo retrovisor e vi seu corpinho rolando pelo asfalto. Que droga! Fiquei muito chateado e não parei para não ficar mais arrasado ainda.
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Fiz meu lanche e tentei não pensar. Até que consegui me conter. Mas a volta, invariavelmente, tinha que ser por aquele caminho. Então criei um fundo de esperança em mim. “Que tal se ele só desmaiou? Isso, eu não passei por cima dele, ele pode apenas ter desmaiado e já ter se levantado. Talvez tenha quebrado algum osso, mas pode estar vivo.” Como a gente é besta, né?! Pois fui voltando e cheguei numa esquina e não vi o corpo do cachorro. Que alegria, eu estava certo, o cachorrinho não tinha morrido, viva...epa, na outra esquina (eu tinha me confundido com o lugar) lá estava o cadáver dele. E o outro cachorro, seu amiguinho, em volta do corpo sem entender que a brincadeira tinha acabado. Cutucava seu amigo morto com o focinho e ameaçava sair correndo, esperando que o outro viesse atrás. Muito triste a cena. Não me culpei pela fatalidade e só me consolei com a morte instantânea, sem dor, nem sofrimento, muito menos agonia. E meu juramento continuou de pé: nunca mais matar um bicho.
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E tenho cumprido. Nem pescar eu pesco. Não suporto a idéia do peixe morrendo sufocado, se debatendo desesperadamente ao nosso lado enquanto nos divertimos. É prazer isso, pescar?? Tirar o animal da água e deixá-lo ali se contorcendo sem respirar. E o pescador geralmente é ignorante. Detesto ouvi-los, suas estórias, geralmente mentirosas e exageradas, odeio esses papos. São, em sua maioria, grandes depredadores do meio ambiente. Se vão para o Mato Grosso, querem pescar mais que a sua capacidade de consumo. Precisam dar peixes, quando voltam, para todos os pescadores idiotas que conhecem, como que para atestar o quanto são bons nisso. Espalham redes e espinhéis pelos rios e vão destruindo a fauna. E se um amigo vai e pega, por exemplo, 50 dourados, o próximo amigo que vai quer pegar 60, só para falar que pegou mais que o outro. É uma raça de ignorantes que adora contar vantagem nem que para isso destruam a natureza.
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Na chácara do Sindicato dos Bancários, às margens da Represa de Capivara, ocorrem os maiores absurdos. Eles compram peixinhos vivos como isca. Geralmente truviras. Pois tem uns ignorantes que compram tanto, mas tanto peixe de isca que só se dão conta do exagero quando estão lá. Daí os peixes morreram todos dentro das latas em que foram levados e não servem mais pra nada, a não ser serem jogados fora. Detesto pescar, detesto matar os bichos, detesto pescadores, detesto estória de pescadores. Como carne de boi, de porco, de frango e peixe. Mas não acho que devo matá-los para isso. Não me dá prazer algum e nem consigo entender o prazer que as pessoas tem nisso. E nem quero entender.
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E deve ter sido um destes ignorantes que foi ao Mato Grosso pescar e se achou no direito de trazer um filhote de jacaré e soltar no Lago Igapó. Outro dia o bicho saiu até no jornal. Estava tomando sol em uma das margens do Lago 2. Já bem grandinho, longe de ser um filhote. Daqui a pouco alguém vai se achar no direito de matar o bicho porque ele é perigoso. Realmente é, mas acho que alguém, Ibama, IAP, autoridades...quem de direito, deveria capturar o bicho e providenciar sua volta ao seu habitat natural. Um outro jacaré que também soltaram no Lago 2 há uns anos atrás, aterrorizou a cidade. Era chamado de “o lobisomem do Jardim Tóquio”. Atacava os cachorros à noite. Matou um monte e mutilou outro tanto. Estava com fome e atacava à noite. Ouvi dizer que lhe enfiaram um tiro na cabeça, no Lago mesmo.
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Meu pai também me deu de presente uma espingarda, calibre 22, de caça. A arma pertenceu ao pai dele. É uma espingarda belga, de 1912, e dispara um tiro apenas de cada vez. Dai você tem que tirar o tambor dela, retirar o cartucho deflagrado e por outro bom no lugar. Um dia fomos ao sítio de um tio, ali no Heimtal, para dar uns tiros. Eu, meu pai, meu irmão e meus dois sobrinhos. Que merda! Acabei passando raiva e sentindo ódio de mim mesmo e de tudo naquela merda! No barranco, ao lado do campinho de futebol, fizemos o nosso stand de tiro. Fincamos uns paus no chão e penduramos neles latinhas de cerveja vazias como nossos alvos. Atira daqui, atira dali, chega mais perto, vai mais pra longe, fomos brincando, um a um, pra ver quem tinha a melhor pontaria. Eis que chega o caseiro do sítio e pede pra eu matar um lagarto que atacava o galinheiro e comia os ovos. NÃO! respondi. Daí meu irmão falou: “deixa que eu mato”. Que ódio de mim até hoje, deixei que ele fosse atingir o bicho. Fiquei constrangido na frente de um estranho. Não quis que ele me achasse um crianção, ou não fosse solidário com o problema dele. O fato é que o filho da puta e sem coração do meu irmão foi lá e pow! Conseguiu enfiar a bala na nuca do lagarto.
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Que animal bonito! Que estampa! Deus realmente é generoso conosco quando nos proporciona a natureza tão bonita. Os desenhos do lagarto eram simplesmente fantásticos, coisa de inspirar tatuadores. Era um lagarto preto, amarelo e vermelho. Um mosaico em seu couro ou pele, nem sei, maravilhoso, de admirar. Depois de mais ou menos um minuto morto, o bicho começou a se contorcer. Uma reação reflexa sei lá. Dizem que é assim com todo lagarto. Ficou assim por alguns minutos e parou. Foram seus últimos movimentos, já sem vida, sobre a terra. Um pouco de sangue lhe escorria da cabeça e molhava a terra. Eu me segurando pra não explodir. Pensava comigo mesmo, por que fui deixar ele matar com a minha espingarda? Por quê? Por que este caseiro corno e filho da puta não cercou direito o galinheiro? Por que deu brecha pro lagarto entrar lá e matar sua fome? Que terrível, o dia pra mim acabou. Ficamos ali mais um pouco e nem o fato de o caseiro ter dito que iria comer o lagarto me causou alívio. “Precisa comer carne de lagarto, filho da puta?” pensava. Nada ia me consolar. Carne de lagarto, ”por que não come a carne das galinhas. Coma galinhas, filho da puta, que nem os outros vão comer as galinhas das suas filhas, seu desalmado, cruel, filho da puta”.
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Deprimido, chateado, odiando, desmontei o resto do dia e chamei todos para irem embora. Não lhes restou alternativa, mesmo porque tínhamos ido até lá em meu carro. Estavam todos na minha dependência. No caminho de volta desabafei. Falei um monte pro meu irmão, do péssimo exemplo que havia sido dado aos seus dois filhos, disse da raiva que estava sentindo de mim mesmo por ter permitido, por não ter sido homem e dito não, por ter fraquejado ao defender meus princípios, amaldiçoei mais umas tantas vezes o filho da puta do caseiro e jurei que aquela espingarda minha jamais teria a serventia de tirar a vida de um animal outra vez. Um silêncio dentro do carro. Ninguém ousou falar nada. Realmente tinha sido uma barbaridade. Só que só eu achava isso. Os quatro, no fundo, no fundo, estavam cagando e andando pro lagarto. Ninguém tem dó dos bichos. Meu pai até tentou balbuciar alguma coisa, defender o caseiro, meu irmão, mas depois ficou quieto, sabe dos meus sentimentos, do meu jeito.
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Uma vez, depois de mais um dia de trabalho, saí com um amigo para dar uma volta de carro e espairecer um pouco, trocar umas idéias, enfim... Fomos para os lados do Shopping Catuaí e passamos ao seu lado e acabamos indo em direção ao distrito do Espírito Santo, patrimônio Regina, aquelas bandas. A certa altura, eu dirigindo, que cena!! Ela estava lá, tranquilona, no meio da pista. Até me deu um frio na barriga. Um calafrio me correu o corpo. Um misto de medo, pavor, mas de emoção também. “Toninho do céu...olha...” E ele, “para o carro”. Estacionei bem meia boca porque ali não tem acostamento e descemos. Que cascavel formidável! Linda como o lagarto. Que estampa, que desenhos na sua pele. E ela lá, sossegada sem saber o risco que corria e nem a sorte que teve ao ser eu o primeiro motorista a avistá-la. Nós na beira da pista, mantendo uma razoável distância, e ela lá, numa boa pondo eventualmente sua língua pra fora.
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É um animal extremamente perigoso. Eu tenho medo de cobras. Mas não tenho motivação para matá-las. Assim como o lagarto, ela estava no lugar dela, no meio do mato. Nós é que fomos chegando onde eles vivem. Invadimos seu mundo, destruímos seu habitat, asfaltamos seus caminhos... Conseguimos admirá-la por uns dois ou três minutos. Tenho tanto receio que tinha até leves vertigens ao ficar olhando. Aquela sensação de medo, temor, pavor, com a emoção...Daí a pouco surge um caminhão. Fizemos sinal com a mão para que ele parasse. Queríamos pedir para ele desviar dela, para que não a matasse. O motorista então parou, pôs a cabeça pra fora e perguntou: “quer que eu passe em cima?” NÃO, gritamos em uníssono. “Queremos que o senhor desvie dela”. E assim foi. Só que a vibração do caminhão acabou incomodando a cobra e ela, toda majestosa, foi se contorcendo e indo embora. Rastejou até o acostamento do outro lado, foi se esgueirando pelo mato, subiu o barranco e se mandou pelo pasto. Pra todo mundo que contamos a história, a pergunta foi a mesma: por que não matamos a cobra? Ela vai matar algum boi, é prejuízo pro fazendeiro. Que se foda, a cobra está no lugar dela, ela é nativa dali. O boi e o fazendeiro não são. Morra quem tiver que morrer, desde que não seja eu quem mate e nem veja matando.
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Voltando aos animais domésticos, uma gata especial que tivemos foi a China. Uma gata de três cores, excelente mãe e caçadora. Teve uma porção de filhotes em casa. Íamos dando os gatinhos e a sem vergonha logo estava grávida de novo. Como ela cuidava de seus filhotes. Ela treinava a prole, ensinava os gatinhos a caçar. No começo trazia bichos mortos. Depois animais feridos ou atordoados e por fim dava as presas vivas para seus filhos brincarem. Aquelas coisas típicas de documentários sobre o reino animal. Isso acontecia dentro da minha casa. A gata era um amor, fofa, meiga e extremamente carinhosa. Cativava pela meiguice. Conseguia as coisas pelo olhar. A sintonia entre ela e minha mãe era fabulosa. Sem dúvida, de todos os animais que tivemos, foi o que eu mais gostei.
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Apareceu já adulta lá por casa. Estávamos sem nenhum bicho há uns tempos e essa gata apareceu e se encostou por lá. Depois, minha mãe descobriu que ela era de um moço que morava na Rua Souza Naves, no mesmo quarteirão que nós, que morávamos na Jorge Velho. Ela vinha por dentro da quadra. Audaz, independente, dona de si, quis pelo jeito estabelecer um segundo endereço. Quando não estava em casa, estava na casa do moço, provavelmente. Mas a gata era espetacular. Daqueles bichos (e quem tem ou teve bicho dentro de casa vai saber do que estou falando) que só faltava falar. Parecia que entendia tudo e até mantinha um diálogo telepático conosco. Não que ouvíssemos alguma coisa, mas só do jeito dela, suas reações ao que falávamos...uma coisa quase indescritível. Vinha quando era chamada. Minha mãe saia de casa, no quintal e gritava bem alto e meio agudo: Chiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnaaaaaaaa! Daí a pouco aparecia a safada. Quando eu chamava, ela não vinha. Mas quando ela estava dentro de casa, tipo deitada sobre o assento de uma das cadeiras da sala, ou mesmo no quintal ou pelo chão da casa e eu chamava, ela vinha correndo, como um cão, para o meu colo. Era louca por carinho, nunca rejeitava um.
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Certa vez sai pela porta dos fundos de casa e fui para o lado do vizinho. Quando olhei para a cobertura da garagem dele, lá estava ela, sorrateira, movendo-se em câmera lenta e olhar fixado no alvo. Chamei pela bicha: “pschiu pschiu pschiu”. Ela olhou pro meu lado com seus dois olhos vidrados, completamente amarelos, quase nem aparecia aquela fenda negra longitudinal que os olhos de gatos têm, como que as cobras (a fenda dos olhos da cobra é transversal). Olhou pra mim por uns instantes e depois voltou a olhar fixo novamente para onde estava antes. Corri os olhos para cima e avistei duas rolinhas, no alto do telhado do vizinho, de costas para ela. Corri para dentro e saí na área, uma pérgula que temos em casa, bem mais próximo do ato. Puxei uma cadeira e sentei pra assistir. Com um leve salto, pulou da garagem para cima do telhado e agachou. Levantou-se e rapidamente deu uns dois ou três passos em direção aos pássaros e agachou novamente. Pensei em salvar a rolinha que seria atacada, mas deixei. Ela não ia matar por prazer, ia matar para comer. Faz parte da natureza, o predador e a caça. Não tem sacanagem nem esporte nisso.
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Avançou mais um pouco, sorrateiramente e manteve seu silêncio absoluto. Então, bem mais próxima delas, levantou-se muito devagar e foi indo, foi indo, aumentou a velocidade e deu o bote. Foi tão rápida que a outra rolinha ainda olhou para o lado antes de sair voando assustada. Matou a caça instantaneamente e caiu fora com seu troféu na boca. Um tempo depois, sai para a rua e o jardim da casa era só pena. Tinha feito sua refeição ali mesmo, na frente de casa. Como é o instinto animal. Nunca faltou comida e tratamento para os bichos em casa. Era alimentada com restos de carne, comida e leite todos os dias. Também sempre tinha uma tigelinha com ração no chão da cozinha. Mas o instinto a fazia caçar. Um dia a China não apareceu. E não apareceu nunca mais. Procuramos e nada. Pelo menos não nos deixou tristes de vê-la morta. Deixou saudades. Até hoje quando falamos de bicho na casa da minha mãe, ela faz parte dos comentários.
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Depois da Chinoca, o bicho que mais gostei foi um filho dela, o Pivete. Êta gato bonzinho. Foi o único que não nos desfizemos de uma ninhada de cinco gatinhos da China. Também, o desgraçado nasceu com sarna parece, todo descamando. Seu rabo parecia o rabo de um rato, completamente sem pelos. Era um animal que dificilmente sobreviveria se fosse abandonado. Ninguém quis o gato daquele jeito. Era tão feio e maloqueiro que o “batizamos” de Pivete, “Pico” para os íntimos. Minha mãe tratou do bicho na unha. Tirava a crosta de pele doente na unha. E dá-lhe remédio. Pois o cara se curou e tornou-se um gato lindo. Um bicho gostoso, carinhoso, cara de pau e safado. Bem como os gatos devem ser. E o ordinário, para ser melhor ainda, gostava de levar uns trancos de mim. Eu não abusava das “surras” e ele tinha a delicadeza de usar seus dentes e unhas na medida certa, para não me machucar também. Quanto eu brinquei com aquele gato! Como a mãe, o Pivete ficou anos conosco. Conhecia todos os esquemas, todos os horários e barulhos da casa. Quando estava sujo, das suas noites de putaria, sabia que não era para subir no sofá e nem se encostar na gente. O cafajeste aparecia para comer. Reabastecia o tanque e partia para a orgia. Ficava uns dias entregue ao sexo selvagem e à disputa pelas vagabundas do bairro. Quando o cio da piranha da vez acabava, ele voltava para casa, todo lanhado, arranhado, sujo, magro. Daí dá-lhe a comer e a engordar. Seu esporte preferido era dormir, hibernar. O meu era cutuca-lo, encher o saco, aporrinhar. E ele gostava, vivia ronronando.
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Um dia minha mãe me acordou num domingo cedo. A vizinha avisou que o Pivete estava morto na Rua Souza Naves. Meu pai foi lá buscar o corpo. Já estava duro. Nenhum sinal de machucado, nem de sangramento, esmagamento... Pode até ter morrido atropelado, ou envenenado. Nunca soubemos, mas almoçamos com o gato estirado ali na pérgula. Olhei e pensei o que fazer. Enterrar?! Jogar no lixo?! Jogar no lixo, não! Que sacanagem. Não tinha uma enxada, nem uma pá para cavar. Não tinha lugar também. Meus pais acabaram se livrando do corpo do gato. Eu estava sem condições. E assim se foi o Pico.
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Depois que casei, mudei aqui para o Vivendas do Arvoredo. Já falei isso antes, mas tem muito mato aqui em volta, por isso o nome do bairro. A floresta do IAPAR é demais. Abriga muito bicho silvestre. O bom de Londrina também são estes pequenos recantos onde se pensou em preservar um pouco. Eu moro do lado de um deles. Já vi revoada de periquitos, já vi “arma de gato” (um passarinho parecido com a rolinha, só que com um rabo bem comprido) e pica-paus. Quatis, preás, lagartos e gambás (cagambás), não são raros por aqui. A mata do IAPAR fica do lado de cima, do meio do bairro para trás e vai lá pro fundo, terminar em um rio ou riacho que tem lá pra trás. Do outro lado, do lado de baixo ou de quem olha para o bairro de frente, à esquerda, tem uma outra mata, bem menor. Tipo um quarteirão igual ao Bosque lá no centro da cidade. Só que muito mais denso, com muito mais arvores. À esquerda ainda, continua mais uns matos (árvores mais esparsas) de outras chácaras. Moro na última rua do bairro. Do outro lado da rua inclusive. O meu muro dos fundos divide a cidade entre zona urbana e zona rural. Se pular o meu muro dos fundos, cai num sítio, que também tem umas árvores ainda. Em suma, tenho mato pelos quatro cantos.
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Aqui fiquei um tempo sem bichos. A Ana Lúcia odeia gatos, embora ature os da casa de sua sogra e até ofereça a sola do sapato para eles roçarem a cabeça. Minha mãe tem dois gatos, o Taturana e o Sussú. Mas a minha mulher não quer saber de gatos aqui em casa. A Ana Cláudia anda ruim do pulmão, sempre com o peito cheio, aquela chiadeira. Não tem nada a ver, mas imagina se tivesse gato em casa. O coitado seria o culpado. Na falta de gatos, tive que optar por cachorros. Primeiro veio o Puppy. Um viralatão grande, batia no meu joelho, até um pouco pra cima, com um rabo lindo. Daqueles que ficam curvados para cima e para trás, tipo um C invertido, com os pelos parecendo uma bandeira. Era preto e brilhante, tão brilhante que parecia ter uns pelos prateados. Era tão lindo quanto estúpido e grosseirão. Avançava nos outros, na rua e corria atrás de motos. Era um bom guarda também. Nada passava em frente ao portão sem que ele alertasse. E gostava de mim. Tínhamos uma sintonia fina. O Puppy veio bem antes da Ana Cláudia nascer.
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Era um cachorro de rua, abandonado e doente. Um colega meu, lá do Sindicato, e sua vizinha em associação com a veterinária de seus cães, trataram dele. Tinha sarna demodécica, aquela incurável e que só cicatriza com remédios e alimentação balanceada. Quando pegaram o bicho da rua para tratar ele estava impraticável como cão. Era uma coisa nojenta e purulenta. Mas trataram do animal e ele foi ficando bom. Um dia a veterinária disse que ia ter que mudar e na nova clínica não teria espaço no canil para ele. Ou arranjavam para quem dar, um lar para ele, ou ele ia voltar para as ruas e a sua situação deplorável de outrora. Ele me contou tudo antes de oferecer o cachorro e perguntou se eu queria ir lá dar uma olhada nele. Fui receoso de não gostar do tipo de cão que veria, mas quando cheguei lá, ele era tão bonito... Eles tinham apelidado o cão de Strupy, de estrupiado (estropiado). Não aceitei aquilo, resolvi resgatar por completo a dignidade do bicho. Rebatizei de Puppy. Mas antes de levar, falei com a Ana. Levei-a até a clínica para que visse o “coisa” e desse seu aval.
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O Puppy ainda tinha uma ferida meio aberta numa das ancas, na bunda mesmo. Mas mesmo assim era um bicho lindo. Ganhamos o animal com os remédios que ele estava tomando e as orientações para que a ferida se cicatrizasse por completo. A veterinária veio no carro conosco para garantir qualquer estranhada que pudesse dar. Quando chegamos em frente de casa, ele de dentro da caixa de papelão olhou para o quintal. Descemos do carro, ela segurando ele pela coleira, abri o portão e o introduzimos ao seu novo espaço. Ele correu uns metros, parou ao lado de uma hortência que tinha no quintal e deu uma bela duma cagada, marcando o território. Pronto, ele aceitou e entendeu que ali era seu novo lar.
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Saia pra levar ele pra passear na corrente. Ele tinha um pique e tanto. Se avistava um cachorro lá ao longe e estava solto, saia em desabalada carreira e dava um carreirão no outro. Se o outro esperava e encarava, não dava em nada. Ele só chegava perto e ia cheirar a bunda do outro, naquele ritual idiota que os cachorros têm para se conhecer. Num desses passeios, conhecemos uma cadela abandonada. Soltava o Puppy e eles brincavam horas a fio na praça lá em frente do bairro, à beira da rodovia. Brincavam numas, na verdade o Puppy queria mais era traçar a cadela que por não estar no cio não deixava ele montar.
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A cadela era um animal sofrido. Não deixava eu me aproximar de jeito nenhum. O máximo que eu conseguia chegar era uns cinco ou seis metros de distância. Se tentava diminuir isso ela dava no pé e ia para bem longe. O Puppy ia atrás e para que eles não fossem para a rodovia, não tentei mais me aproximar. Mas ficava olhando aquele bicho. Ela tinha um olho estragado, tipo uma catarata. A menina dos olhos era opaca, disforme e esbranquiçada. Em torno de seu pescoço, uma corrente de cachorro presa a ela mesma, pois a cadela não tinha uma coleira. Ela descia do pescoço até o chão, de modo que quando ela andava a corrente arrastava no solo. Junto com a corrente, um fio de varal de plástico também estava em seu pescoço, meio que enroscado com a corrente. Pelo medo que ela sentia de humanos e pelos sinais que carregava em torno do pescoço, via-se que era um animal que não tinha sido feliz com seu antigo dono.
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Um dia, depois do passeio, voltamos para casa. O Puppy na corrente e a cadela seguindo a gente. Entrei em casa, soltei o cachorro e deixei o portão aberto. Corri, dei a volta na casa e fiquei espiando. Quando a cadela entrou e foi mais para o fundo, dei uma corrida e fechei o portão. Na hora que ela me viu nem se preocupou tanto, mas quando percebeu que estava presa no quintal, entrou em desespero. Falei para a Ana: “o coitadinho precisa de uma companheira também. Ela é da rua. Podemos ficar com ela que vai ser a mesma coisa. Estamos salvando dois animais que tinham os dias contados e sofridos”. Com os dois no quintal, fim dos passeios. Tinha medo de sair com os dois e da cadela não voltar. Tinha que acostumar e aceitar sua nova casa e a nossa proposta. Levei mais de duas semanas para conseguir passar a mão nela. Fui chegando um dia e ela já acostumada com a gente e com a idéia de fazer parte da família aceitou a aproximação. Eu queria tirar aquelas porcarias de volta do seu pescoço. Quando cheguei, a bicha estava com os dentes arreganhados. Mesmo assim eu fui, morrendo de medo de levar uma mordida e ter que manda-la embora. Mas que nada, foi tranqüilo desta vez.
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Mas sempre que eu chegava perto da cadela ela arreganhava os dentes. Que diabos, será que ela ainda não viu que eu sou bonzinho para ela, que ela não apanha aqui, que toda vez que encosto nela é para acariciá-la? Uma noite, eu e a Ana chegando em casa e os dois do lado de dentro abanando seus rabos de alegria. O Puppy latindo como uns uivados. Ela abanando o rabo e os dentes arreganhados. Daí me deu o estalo! Que burro, a cadela arreganhava os dentes para sorrir. Ela estava sorrindo para a gente. Desde o começo, e eu não percebi, achava ela desconfiada e desconfiava dela também. Literalmente minha cadela sorri. Conhecem “O Portão”, do Roberto Carlos? “Pois é, “meu cachorro me sorriu latindo...eu voltei, voltei para ficar”, só que a minha cachorra me sorria de verdade! Como é cegueta de um olho, ela franze a cara, mas franze muito e arreganha os dentes para sorrir, É muito engraçado. Logo a Ana falou: “ela é muito charmosa, vamos chamá-la de Penélope Charmosa. Acabou ficando só Charmosa mesmo. E se tem uma coisa que a Charmosa não nos nega nunca é o seu lindo sorriso. Aqueles dentes branquinhos, todos arreganhados para nós, uma coisa muito querida. Eu chego em casa e falo, “o que você está sorrindo pra mim, sua sem vergonha? Vou pegar uma pedra e quebrar todos esses seus dentes branquinhos desta sua boca fedidinha.” E quanto mais eu falo essas coisa pra ela, mais ela sorri. Já tirei fotos do seu sorriso e já filmei ela sorrindo também.
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Um dia, chegando do serviço, a Ana já grávida da Ana Cláudia, enquanto descíamos a rua de casa avistei um cachorro de ar alegre. Parecia que já o tinha visto por ali. Quando parei em frente de casa ele rodeou o carro e fez festa. Até a Ana achou aquilo engraçado. Fomos entrando e ele atrás, todo enturmado. Deixei entrar pensando se tratar de um cachorro de um vizinho que mora umas casas pra cima da gente. O “boa gente” já deu conta do recado, fez amizade com o Puppy e a Charmosa e se encostou. Pensei que logo o dono estaria na rua gritando pelo cachorro. Que nada, o safado enturmado era parecidíssimo com o cachorro que tinha o vizinho. É uma mistura de vira-latas com algum cachorro de raça, pois sempre vejo cachorros com estas características. Bem, estava formado o trio parada dura. O Puppy a Charmosa e aquele bonachão folgado ainda sem nome. O Puppy era o dominante no terreiro. Botava pra quebrar e comandava o quintal. A Charmosa era mulher e se resignava a obedecer, bem submissa. E o Bon Vivant intruso não estava nem aí. Comia por último, bebia por último, tudo na paz do nosso Senhor. Um verdadeiro banana! “Ei, olha aí!!! Vai se chamar Banana!!!” Perfeito o nome que demos a ele. Um verdadeiro banana, bonachão, boa praça, brincalhão, bananão mesmo!
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Tudo foi lindo e maravilhoso até a Charmosa entrar no cio pela primeira vez. Que marcada, esqueci de dar uma injeção anticoncepcional nela. Meu amigo, os dois barbarizaram com ela. Um descia, outro subia, outro descia, um subia. E a ordinária não negava fogo por sua vez. Resultado da farra: nove filhotes, um mais lindo que o outro. Mas era demais, minha filha ia nascer e não podíamos nem pensar em ter tanto bicho assim em casa. Graças a Deus conseguimos dar todos. Alguns tinham sarna demodécica como um dos pais, fiquei sabendo depois. Passei as orientações para cuidar de bichos assim. Depois que cria amor, ninguém ia querer abandonar o animal.
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Quando saía pra passear não precisava usar correntes nos três. A Charmosa mostrou-se extremamente fiel e vai onde eu vou até hoje. Está sempre por perto de mim. Conseqüentemente os dois machos também ficavam. Um não dava mole para o outro. A Charmosa gostava mais do Banana, mas não podia negar ao Puppy, até pela força do outro. Nas épocas fora do cio os dois ficavam rodeando onde ela estava. Brincavam, se mascavam, mas não saiam de perto.
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A Ana Cláudia nasceu! A Ana depois que elas receberam alta hospitalar, foi passar os primeiros dias na casa de sua tia, até pra aprender como se virar enquanto mãe e receber as dicas e ajudas da sua parente mais próxima. Fiquei em casa uns dez dias, sozinho. Ia até lá, visitava as duas, mas vinha dormir em casa. Na manhã do primeiro domingo, soltei os cachorros para darem uma voltinha. Fiquei em casa vendo a corrida de Fórmula 1. Era o GP que o Rubinho ganhou sua primeira corrida. Foi quando o irlandês maluco que atrapalhou o maratonista brasileiro em Atenas, entrou na pista e fez todos os pilotos embolarem e o Rubinho acabou se beneficiando. Daí a pouco meus pais vieram em casa e ficamos conversando. De repente, ouvi os tiros. Uns quatro ou cinco tiros e gritos de cachorro.
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O Banana veio correndo pra casa. Tinha levado dois tiraços. A Charmosa veio depois, ilesa. O Puppy, pra falar a verdade, já nem me lembro se ele tinha morrido ou não. Mas o Banana e o Puppy morreram em dias muito próximos um do outro. O Puppy contraiu uma doença misteriosa e quando levei pra veterinária ver o que era, já era tarde, não tinha mais o que fazer por ele. Acabou morrendo na clínica. Só não me lembro se antes ou depois do Banana. Mas o Banana veio ferido, naquela manhã, para casa. Levou um tiro de raspão na cabeça, que lhe abriu uma fenda que escorria sangue do crânio (deve ter doído pra caralho) e um tiro nos pulmões, este em cheio. Tinha um furo na lateral do tórax de onde escorria sangue. A Charmosa estava assustada.
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O autor da proeza era o morador de uma chácara na entrada do sítio que é meu vizinho de fundo. Um motorista de táxi que criava soltas umas galinhas. Meus cachorros iam lá e pegavam as que tinham passado a cerca de arame farpado e ciscavam na estrada de entrada do sítio. O Banana era o mais atrevido. Virava e mexia ele matava uma galinha ou um pintinho. Meu pai ficou uma fera e foi para a rua e começou a descer para o lado da chácara. Larguei o Banana amuado no quintal e fui atrás para conter meu pai. Quando viramos a esquina, demos de cara com o homem e sua espingarda. Cheguei e falei: “o que houve, senhor? Atirou nos cachorros por quê? Ele disse que era por causa das galinhas que eles matavam e nem chegamos a bater boca, mas adverti que ele estava errado se suas galinhas estavam na rua. E ele atirou no meu cachorro que sequer estava em sua propriedade. Meu pai queria ter ido mais além, mas ponderei; “acabei de ter uma filha, pai. Vou matar um homem, ou bater nele por causa de um cachorro? Minha filha merece ter pai”.
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Não sabia o telefone de plantão das veterinárias que tratavam meus bichos. Acabei levando o Banana para a UEL. Era uma emergência. A docente de plantão disse que só para abrir e investigar o estrago seria R$ 250,00, fora medicamentos e outros procedimentos que se fizessem necessários. Com uma filha recém nascida não podia nem pensar em gastar um dinheirão desses. Sua sentença de eutanásia estava assinada. Paguei a taxa e fiquei junto dele acompanhando o sacrifício. Deram um tranqüilizante para ele dormir, um anestésico para não sentir dor, e outro medicamento que em altas doses provoca uma parada cárdio-respiratória. Quando injetaram o tranqüilizante ele virou os olhos. Ele morreu comigo ao seu lado chorando e lhe pedindo perdão. À tarde fui a casa da tia visitar minha família e contei para a Ana. Ela também chorou. O simpático e figura ímpar do Banana não estava mais entre nós.
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De uma só vez quase, a Charmosa ficou viúva duplamente. “Dona Flor” enviuvara de seus dois maridos em pouco tempo. Quando viemos para casa, ela sentiu o cheiro de nosso bebê. Que cara linda, sorridente e curiosa ela nos fez. Parecia saber do que se tratava. Como estava viúva, pelo menos não ia mais precisar enche-la daquelas injeções anticoncepcionais que acabam sendo cancerígenas. Não ia?? Que nada, o bassê (ou será bassêt) de um outro vizinho, consegue se espremer entre as grades do portão e da cerca da frente e entra no nosso quintal. Mas como era baixinho não dei importância. Só se esta cadela abaixar para dar uma, caso contrário o piloto de carrinho de autorama nunca vai conseguir cobri-la. Não? Humpf. Tempos depois estava no nosso quintal um único cãozinho fruto daquele amor tido impossível. Era uma bolinha marronzinha. Parecia um grão de feijão. E foi este o nome que ele recebeu: Feijão. Uma mistura de vira-latas com Basset e vira-latas, sim porque o cachorrinho do vizinho também não é puro. Em suma, tenho um basset misturado, entroncadinho no quintal. E como o Feijão Jão Jão é bonito! Tenta sorrir mas não tem o mesmo charme e nem o carisma da mãe. É apenas um cão orelhudo e bonito.
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E cresceu no quintal enquanto a Ana Cláudia crescia dentro de casa. Eles se dão super bem, agora que a Ana Cláudia já vai para o quintal. Ela brinca com os dois, mas sem por a mão neles. Estão sempre sujos, os vadios. Ela os chama e lá vem os dois, sorrindo para ela. E ela gosta dos bichos. Graças a Deus, tomara que seja como o pai, que ama e respeita os animais. E tem dó e não gosta de ver bicho maltratado, sofrendo. Tomara! Só sei que a Charmosa ganhou uma sobre vida de quase cinco anos, já. Deu-nos um filhotão bonito e safado e alegre e simpático. Os dois gostam da minha filhinha e ela gosta deles. A Ana também gosta deles. Todo mundo se gosta aqui. Só acho um saco ter que dar banho nos dois porcos. Se deixar, eles se esfregam na lama ou no lixo. Daí fedem que dá vontade de jogar fora. Mas além de meus fiéis animais, prestam guarda do quintal e da casa. Latem para qualquer um que passe em nossa calçada, mesmo que já conheçam a pessoa. E assim vamos sendo felizes por aqui. Nós e nossos bichos.
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Em tempo: não fiquei nenhum pouco feliz, nem achei bem feito. Tentei imaginar, mas não consegui saber a dimensão do que é um pai perder a filha. O homem que atirou no Banana teve sua filha assassinada este ano. Ela era uma daquelas duas moças que foram assassinadas lá na UEL, numa estradinha de terra perto do CESA. Durante a greve dos bancários, saia de madrugada de casa. A Ana ia depois e chamava o Rádio Táxi. Por diversas vezes quem atendeu foi o senhor Adão, pai da moça. A Ana disse que ele se lamentava muito, o tempo todo. Carregava fotos dela, dizia das dificuldades que ela enfrentou para entrar na UEL, do sacrifício que foi. Ia quase chorando pelo caminho. Uma coisa muito triste mesmo.
Publicado em 12 de dezembro de 2004 às 01:10 por silvio