ÍNDICE
Apresentação
Prólogo – 43 anos de alegrias
A iniciação com o futebol
O início do amor Tricolor
O futebol e o lúdico
Tapete cinza
Arrependimento e lição
Mudanças
O Tricolor em Londrina
O menino futebol
O começo das grandes glórias
Sérgio Bernardino
Os porquinhos pagam seus pecados
A assimilação
Ladralat
Choque-Rei em Londrina
Às vezes dá certo
Um prato que se come frio
Campeão da década
Campeão o ano inteiro
Anos – 90 O melhor estava por vir (Telê Santana)
A primeira vez, a gente nunca esquece
Ao mestre com carinho
Bi Mundial – ninguém superior ao Tricolor
Espancando a marginália
O “apito amigo”
Uma casa para os descamisados
Trucidando a marginália
Humilhando a marginália
Desesperar-se com o sucesso alheio
Tri Mundial – simplesmente supremo
Tricolor acima de todos – S.P.F.C. (4-3-3)
Carta de um são-paulino
Tirando a barrigada do peixe
Morumbi
Laudo Natel
Laudo Natel e o Morumbi
Cícero Pompeu de Toledo, Morumbi, MorumTRI e MundoTRI
Entrevista com Laudo Natel
S.P.F.C. Extra Campo
Torcedores famosos
Estatísticas - A Busca da perfeição
Ranking’s
Epílogo (Futebol Também É Cultura)
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APRESENTAÇÃO
Da séria série “Posts Longos Pacarai” apresento aos Tipos e aos meus amigos, parentes e chegados o novo longo post São Paulo Futebol Clube. É longo porque gosto de fazer assim. Quem quiser saber vai perder meia hora lendo. Os mais interessados vão perder uma hora e meia porque vão poder conferir o que digo através de diversos links que disponibilizei durante o transcorrer do texto. Dias e dias de inspiração, para falar e ainda ficar devendo ao grande Tricolor, e de pesquisas para não passar por falastrão sem propósito, foram consumidos de minhas modestas férias para a construção deste Documento. Este texto é para divertir, brincar, zoar, não é para irritar, ofender, magoar. É para informar, dar conhecimento, embasar discussões. É pra contar um pouco de história, da minha história, da história do Tricolor. Se você é incapaz de ler algumas das brincadeiras que vou fazer a meus amigos palmeirenses, corintianos, santistas (porcos, gambás e baiacus) e outros times inferiores ao grande São Paulo Futebol Clube, saia agora! Não leia! Comentários raivosos e mal educados serão descartados (Vá falar mal do São Paulo e me xingar no seu blog hehehe). Na verdade é uma gozação em cima de meus amigos, parentes, conhecidos e chegados que torcem para qualquer coisa e não têm o bom gosto que eu e mais 14 milhões de pessoas temos. O texto contém palavrões que de forma alguma quero generalizar para quem quer que seja. A intenção é, embora quase tudo seja a mais extrema verdade com algum exagero por conta da ironia, do bom humor e da “liberdade poética”, apenas brincar com meus camaradas que não torcem pelo glorioso, triunfante, magnânimo, estupendo, altaneiro, brilhante, super, hiper, ultravencedor, o simplesmente insuperável campeoníssimo Tricolor TRI MUNDIAL, melhor time do Brasil, respeitadíssimo no mundo inteiro, São Paulo Futebol Clube. Como não só os meus amigos e conhecidos é que vão ler esta história é que peço a compreensão, e espírito esportivo acima de tudo, do leitor desconhecido, para que entenda isso e não perca seu tempo com ofensas, pois nada atinge quem está no topo hehehe. Além do que, como já avisei, comentários doentios, perturbados e que descambarem para a baixaria serão descartados. Este texto não foi escrito para provocar, brincar ou zoar com a sua cara. Como está em um blog e é público, certamente quem eu não conheço também vai ler. Aceito discutir as proposições, mas sem partir para a baixaria, visto que embora o São Paulo seja mesmo o melhor time do mundo, não é ele quem põe comida na minha mesa, muito menos paga as minhas contas. Aliás, este time até hoje só me deu despesas hehehe. Relata, de forma mais ou menos a respeitar a cronologia de fatos, mas sem precisão cirúrgica alguma, a trajetória do melhor time do mundo com a vida deste que escreve.
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PRÓLOGO (43 ANOS DE ALEGRIAS)
Nasci em Londrina, em fevereiro de 1964, sob o signo de Aquário, na Era de Aquarius. Acredito piamente que vim a este mundo predestinado a ser um torcedor FELIZ E SUPERIOR. Uma coisa escrita nas estrelas. Estrelas...estrelas...hummm... Esse assunto é bem interessante mesmo. Bem por isso que sou são-paulino e no decorrer deste texto mostrarei e provarei inexoravelmente esta constatação.
Minha casa tinha televisão, desde meses depois que a tevê chegou em Londrina, lá pelos idos de 1963. Meu pai comprou para minha mãe poder se distrair enquanto me aguardava nascer e já cuidava de uma criança de seis anos, meu irmão. Naquele tempo em que eu comecei a prestar um pouco de atenção à tevê (1968-1969), a TV Coroados, fundada em 1963, a primeira do interior do Brasil, e então afiliada da Rede Tupi, só começava sua programação às quatro e meia da tarde. Era só desenho animado. Gasparzinho (da série antiga), Mister Magoo, e as séries Daniel Boone, Forte Apache, Batman, Bonanza, Viagem ao Fundo do Mar, etc. Lembro que à noite, a linda Eva Wilma fazia as “Confissões de Penélope”, embora eu não entendesse nada e só achasse aquela mulher linda.
Mas, criança e preocupado em brincar e só brincar, a tevê não me entretinha muito depois dos desenhos. Não tenho memória para muito mais coisa da tevê no início do meu entendimento como gente. Mas, certa vez minha mãe, que deixou de ser professora quando meu irmão nasceu, imbuída pelo seu espírito de educadora, pegou os dois pelas mãos e nos pôs em frente ao aparelho (uma Philco RQ – Reserva de Qualidade).
- Olhem, o homem está chegando à lua.
- Na lua, mamãe?
- Na lua.
E ficamos olhando aquelas imagens confusas, ora congeladas, e demoradas. Não me lembro de nada da narração, mas ficamos olhando.
Alguns dias depois a mesma situação:
- Olhem, o homem está voltando da lua.
Muito mais legal. Aquela cápsula espacial boiando no mar, um helicóptero sobrevoando com um cabo de aço pendurado embaixo com um gancho para engatar a nave. A cápsula içada e transportada. O astronauta depois, a bordo do navio de resgate, sendo recebido pelos seus amigos. Imagina quanta inspiração para desenvolver a imaginação e brincar de astronauta. Aquilo era, na verdade, o mais próximo que um mortal havia chegado perto das estrelas. De todas as estrelas. Bem, isso não tem muito valor se falado para um são-paulino, que conhece bem o que é não só chegar como também possuir apenas três destas estrelas (QUE SÓ NÓS TEMOS) por enquanto: as estrelas mais importantes do universo do futebol em termos clubísticos. Afinal, ser TRI do MUNDO não é para qualquer um hehehe.
Daí, como o lindo skyline de Londrina ainda não era tão recheado de prédios, era possível do quintal de casa avistar os helicópteros, que vinham do aeroporto, transportando até o Centro, como as naves americanas faziam ao içar as cápsulas das Apolos, as enormes antenas parabólicas que fizeram com que o Edifício Cinzia tivesse “bobes na cabeleira”. A cidade estava sendo preparada para melhorar a recepção de transmissões diretas, via microondas e via satélite. Isto iria acelerar o contato de Londrina com o mundo. Tudo chegaria mais rápido aqui.
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A INICIAÇÃO COM O FUTEBOL
Embora tenha crescido com tevê dentro de casa, só fui tomar conhecimento do São Paulo Futebol Clube com meu pai. Ele ficava ouvindo os jogos pelo seu rádio Mensageiro, da Philips, comprado exatamente por causa da Copa de 70, que devia chiar pra caramba também, pois ele ficava com aquele “radião” colado no ouvido e aquela cara de dor, sofrimento, mas que era apenas a cara de quem se concentrava para driblar com a mente a estática das ondas do rádio e entender, entre chiados, o que os “speakers” estavam falando. Meu pai sempre foi do tipo que gostava de ver pela tevê e ouvir pelo rádio, coisa que herdei dele e considero ser bem melhor quando queremos assistir o nosso time com a sensação de estarmos na arquibancada. Ele devia estar sintonizado nas rádios de São Paulo, porque o que não faltava naquele aparelho eram faixas de freqüência. As vezes a narração era local, acho que de jogos do Londrina. Para aquela criança que não entendia nada de futebol, os narradores falavam tão depressa que eu não entendia nada absolutamente. Ficava me perguntando como os adultos conseguiam entender.
Da final da Copa de 70, nada me lembro. O engraçado é que perguntei a eles o que fizemos naquele dia, onde estávamos, e ninguém, nem minha mãe, nem meu falecido pai e nem meu irmão (que já estava com 11 para 12 anos naquela época) souberam dizer. Um mistério. Da Copa de 70 lembro de três coisas: lembro do jogador da Tchecoslováquia que comemorou um gol com o sinal da cruz (ia ser morto pelos comunistas quando voltasse), lembro da minha mãe ajudando meu irmão a soltar uns traques pela janela de casa porque rojões e as bombinhas de 50 e 100 (o traque era de 10, não me pergunte se era referente à potência ou aos centavos que custavam) meus pais não davam, e lembro do meu pai falando que um determinado jogador, de alguma seleção, que não me recordo (lembro mas não recordo, essa é boa) era perigoso porque chutava com os dois pés. Cai bastante no quintal de casa tentando chutar a bola com os dois pés ao mesmo tempo. Faltava jeito, não tinha apoio. Pensava em como o cara era capaz de chutar forte com os dois pés ao mesmo tempo. E só depois fui entender que chutar com as duas era o mesmo que chutar tanto com a direita quanto com a esquerda. Tá rindo do quê? Eu tinha só seis anos.
Depois da Copa, lembro dos comentários sobre a conquista. Tios, primos, gente da escola... mas não me lembro absolutamente de nada daquele dia. Com todo mundo que converso e que tem lembranças daquele dia eu consigo uma resposta. Mas minha família simplesmente não se lembra de nada. Fui tendo noção do que aconteceu com o passar dos anos, pois talvez o ufanismo, incentivado pelos militares (“marco extraordinário, sesquicentenário da independência, potência de amor e paz esse Brasil faz coisas que ninguém imagina que faz...” quem é véio que nem eu, lembra desta musiquinha?), fazia com que os grandes feitos do Brasil fossem sempre reprisados, “recomentados”, revisados... enfim, quem viveu aquela época sabe do que falo deve ter cansado de ver e rever o TRI do Brasil e as incansáveis alusões àquela conquista.
Ainda nesta fase em que não tinha sido revelado para mim que eu seria inevitavelmente um torcedor FELIZ E SUPERIOR, o contato que eu tinha com futebol era um programa dominical da Tupi, com o jornalista Rui Porto. Ele devia apresentar os gols da rodada, fazer os comentários, etc., mas eu só me lembro dos resultados da Loteria Esportiva. Aquilo me chamava a atenção. Cada coluna da Loteria era patrocinada por uma garrafa de bebida. Assim, ele falava o resultado: “tal time 1, outro time 0”. A imagem era cortada para uma moça que falava: “coluna um, Cinzano”, com uma voz sedutora. Novamente cortavam a imagem para uma cartela que ocupava a tela inteira e a garrafinha da bebida era colocada sobre a coluna um daquele jogo. E assim sucessivamente até completar os treze jogos (naquele tempo eram apenas treze jogos na Loteca). Não me lembro qual era a bebida que representava a coluna do meio e a coluna dois, mas deviam ser da mesma empresa. E nem tenho certeza se a bebida era Cinzano mesmo, mas era com bebidas que eles marcavam a cartela da tevê.
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O INÍCIO DO AMOR TRICOLOR
Mas, acredito que foi pelos idos de 1971, ou talvez ainda em 70 (70 ou 71?? Bem, se você quiser tanta precisão assim, vá se catar, pois eu era criança e só com uma regressão vou lembrar) depois da Copa, que um dia vi meu pai com o rádio no ouvido.
- Paiê, que cê tá fazendo?
- Ouvindo jogo. Respondeu franzindo a testa como que para se concentrar e ouvir melhor.
- Paiê, quem tá jogando?
- São Paulo e Corinthians.
- Quem tá ganhando?
- São Paulo.
- Paiê, quem você torce?
- São Paulo.
Minha primeira casa fica na Rua Jorge Velho, na Vila Ipiranga, entre a rua Souza Naves e a Av. Rio de Janeiro. Morar ali era o equivalente a morar, como se dizia antigamente, pra baixo da linha do trem, só que no sentido da zona sul. Não me recordo se foi no mesmo dia, mas naquele tempo, eu já com seis anos de idade, me aventurava a sair sozinho de casa pelas pacatas duas quadras da rua Jorge Velho, onde estava autorizado a circular. Naquele tempo, a Vila Ipiranga era bairro ainda, não era Centro. Carro quase não passava, nem o mundo era esse perigo de hoje. Atravessei a Souza Naves e fui ter com três amigos que moravam na quadra de cima. Todos palmeirenses, se bem que eu nem tinha a noção disso.
- Arrancamos umas bandeirinhas do São Paulo que um homem passou amarrando nas árvores e postes - falou o mais velho, empertigado, com as mãos na cintura, tal um capataz, que já tinha uns nove anos e influenciava os outros dois, que eram irmãos, quase da mesma idade minha, a torcerem pelo Palmeiras.
- Por quê?
- Não é nosso time, arrancamos mesmo.
- Cadê?
- Queimamos - respondeu o indecente mais velho com toda a arrogância de quem achava que tinha feito um grande bem a humanidade.
Na sarjeta, as cinzas, o que sobrou delas. Então, nem todo mundo era como meu pai que gostava do São Paulo.
- Mas vocês não quiseram deixar aí...
- Não, a gente arrancou mesmo, não é do nosso time.
- Vocês não gostam do São Paulo por quê? (pô, é o time do meu pai, pensava).
- Por que a gente é palmeirense - falou o mais velho dos três, mãos na cintura, como um comandante da trupe de cafajestes mirins.
- É, a gente é palmeirense - concordaram os irmãos, dois baba-ovos do idiota mais velho.
Olhei as árvores da rua (magnólias e alfeneiros), que naquela época haviam sido plantadas recentemente e eram pequenas ainda e possuíam uma cerquinha de balaustra ao seu redor. Só havia restado os nós das bandeirinhas, que eles arrancaram porque não conseguiram desamarrar. Aquilo me calou fundo. Queria levar uma para mostrar para meu pai. Seria um troféu de um filho ao pai. Imaginei como ele ficaria feliz. Mas meu coração doía. Pensava na sacanagem que era ter arrancado o que os outros colocaram, na falta de coração e de consideração. Confesso que fiquei chateado e constrangido para reclamar. Eram três contra um, eu perderia. Não tinha nem como bater boca. Mas fiquei com um nó no coração. Engoli calado e nem deixei eles perceberem meus olhos úmidos. Disfarcei. E eles pagariam caro, muito caro, até os dias de hoje. Minhas pragas são terríveis hehehe. Até então, eu gostava do São Paulo.
Neste dia aprendi que deveria amar e o que deveria odiar.
Talvez o São Paulo tivesse sido campeão naquele dia e o torcedor passou comemorando e embandeirando a área. Talvez só tivesse se classificado para a final, desclassificando o Corinthians (se é que isto aconteceu mesmo no dia em que meu pai disse que os dois jogavam). Sei que me senti injustiçado. Mas era só eu de são-paulino. Depois, umas duas casas pra cima da nossa, veio morar uma família. O garoto, meio ano mais velho que eu, era Tricolor. Não estava mais sozinho.
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O FUTEBOL E O LÚDICO
Fui crescendo e me inteirando de futebol. Meu irmão ganhou um “Estrelão” com dois times de futebol de botão. São Paulo e Palmeiras. Depois, a cada dinheirinho que pintava, ele comprava novos times nas Lojas Americanas. Tinha Santos, Corinthians, Cruzeiro... Todos os times tinham as carinhas dos jogadores em cima dos botões. Sérgio, Arlindo, Terto, Forlan, Paraná, Pedro Rocha, Mirandinha (era do Corinthians ainda), Rivellino, Ado, Baldochi, Eurico, Leivinha, Leão, Dudu, Ramos Delgado, Clodoaldo, Pelé, Edu, Tostão... Que delícia! Passava as tardes jogando, ora com meu irmão, ora com meus amigos. Jogava até sozinho quando não tinha ninguém pra brincar. Inventava campeonatos imaginários, jogos, grandes decisões... É claro que o São Paulo papava todas. Às vezes até com três jogadores a menos. Imaginava batalhas épicas em que o juiz “filha da puta” roubava o São Paulo, expulsava três jogadores e mesmo assim o Tricolor aniquilava os malditos hehehe. Naquele tempo, um jogador era do clube quase que para sempre. Dois, três, quatro anos depois de comprar um time de botão, as escalações ainda estavam valendo porque os jogadores não mudavam de clube como hoje, em que o cara beija o distintivo do clube e amanhã vai jogar nos rivais.
Estudei do pré-primário à 4ª série no Hugo Simas (1969 – 1973). Não me lembro de palmeirenses e santistas comemorando seus Paulistões, de 72, 73 E 74. Mas lembro da disputa de pênaltis em que o Armando Marques fez uma das maiores burradas da arbitragem brasileira, entre Santos e Portuguesa na final do Paulistão de 73. Talvez porque os campeonatos se decidissem nas férias e eu ainda não estivesse tão "antenado" em futebol ao vivo pela tevê. Preferia brincar com meu Forte Apache ou com os carrinhos Match Box que meu pai, que era viajante representante comercial, trazia a cada vez que ia até Foz do Iguaçu (leia-se Paraguay). O máximo que falava de futebol, no 1º e no 2º anos, era pra encher um sobrinho da professora, a Tia Valderez Penteado. O menino se chamava Vitório, era meio nervosinho, e pra encher seu saco eu vivia repetindo “Brasil 2, Vitória 0”. Sabia que o Brasil “era um time” e inexplicavelmente conhecia, sabe-se lá como, que existia o Vitória (daí a querer saber se era o da Bahia ou o do Espírito Santo, é demais, nem me pergunte). Provavelmente tinha ouvido o nome do Vitória no programa do Rui Porto na tevê.
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TAPETE CINZA
Em 1973, meu pai me levou ao Vitorino Gonçalves Dias para ver uma partida de futebol. Mais precisamente no dia 25 de março. Como eu sei? Tenho um livro do J. Mateus, da Rádio Paiquerê, que traz todos os jogos do Londrina com data e placar. Fui lá, procurei e posso afirmar. Mas, que decepção! Eles jogavam sobre a grama! “Tá louco, e aquele troço cinza que eles jogam em cima, na televisão?” Que estranho foi aquilo para mim. Um sentimento de atraso. “Aqui jogam na grama, em São Paulo jogam naquele negócio cinza, muito mais moderno”. Eu não me conformava, estava decepcionado. Achei que era por isso que mostravam os jogos de São Paulo. “Como é que vão mostrar uma partida na tevê se jogam em cima da grama?” Como comecei prestar mais atenção em futebol, logo fui perceber que a grama na televisão em preto e branco era cinza. Que tonto, os narradores falavam em gramado, só podia mesmo ser grama lá também. Mesmo assim minha decepção foi grande. Achava que tinha que ser sobre uma coisa cinza qualquer, um tapete, um assoalho, qualquer coisa desde que não fosse grama, e que fosse cinza. “Como podem jogar sobre a grama?” E a decepção valia pra todo mundo, até pra Seleção Brasileira.
Mas foi um jogo histórico. O LEC enfiou 4 x 0 no Maringá Esporte Clube (isso mesmo, não era o Grêmio, não). Dois gols do Anderson (Ei ei, vocês se lembram do meu futebol, continua o mesmo, mas os meus cabelos, quanta diferença) e dois gols do Zé Miguel, os dois primeiros de sua carreira. No último, ele driblou o goleiro e “só não entrou com bola e tudo porque teve humildade e GOOOLLL!!!!!!” Zé Miguel foi folclórico. Até hoje há quem ainda grite no estádio, quando o Tuba Tubão tá maus: “tira o Zé Migué... ...põe o Zé Migué”. O placar do VGD, patrocinado pela Skol, que ficava atrás, meio pro lado, do gol de entrada do estádio (mais ou menos onde está hoje), era como se fosse um out-door, mas mais alto e largo. Em letras maiores, no alto, estava lá: LEC 4 X 0 MEC. Em baixo, em letras menores, todos os outros jogos da rodada com seus resultados, na medida em que iam acontecendo. Lembro que tinha um espaço em que o menino que marcava assistia ao jogo e ia mudando os placares assim que saiam gols. E tinha um quadrado vazio para que ele pudesse ver o jogo. Sonhava em fazer aquele trabalho. A partir desta época, meu coração tinha um segundo time. O time da minha cidade. Eu acompanhava quase todos os jogos do Londrina Esporte Clube. Era minha paixão local. Era tão fanático quanto era pelo Tricolor. Mas se tivesse que responder pra quem eu torceria se os dois se enfrentassem, eu logo respondia: pro São Paulo.
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ARREPENDIMENTO E LIÇÃO
Mais ou menos nesta época também, meu irmão torcia pelo São Paulo, mas dava uma fraquejada e torcia pelo Coritiba, que era o representante do Paraná nos Brasileirões. Quando o Coritiba jogava contra outros times, eu até acompanhava e torcia junto (e me arrependo amargamente de ter feito isso um dia na vida. Mas era criança, influenciado pelo irmão mais velho e nem tinha noção do que esta agremiação escrota era. Sabe como é, criança...). Certa vez o São Paulo foi jogar em Curitiba e tomou um quatro a zero. E o filho da puta feliz, ainda ria na frente do meu pai. Não acreditava. Depois, de raiva, torci contra estes pulhas. Meu irmão ficava puto. “Se você torcer de novo pro Coritiba, vai apanhar”. Ele ficou tão bravo comigo que não aceitava mais a minha solidariedade nos jogos do Coritiba. E nunca mais torci por estes babacas. E quer saber?! Graças a Deus!! Estes curitibanos filhos da puta sempre roubaram o futebol do interior do Paraná. Quem é daqui e contemporâneo meu vai lembrar as verdadeiras cirurgias que os árbitros faziam no LEC e nos demais times do interior. Quem não se lembra de Rubens Maranho, Eraldo Palmerini, Célio Silva, Nelson Lenkhul e outras figurinhas carimbadas que garfavam o Tubarão aqui contra os três de Curitiba, principalmente o Coritiba que, nos anos 70, engatou um hexacampeonato consecutivo? E tá cheio de curitibano que não se conforma que nós, do interior do Paraná, não morramos de amor por times de Curitiba, como o interior paulista faz com os grandes, idem no Rio, Minas e Rio Grande do Sul. Era só o que faltava, além de sacanear o interior, eles têm a pretensão de achar que deveríamos torcer por qualquer coisa de Curitiba só por ser do Paraná, como se morrêssemos de amor por eles, como se tivéssemos alguma espécie de ufanismo estadual correndo nas nossas veias. Mas quem eu detesto mais é o Coritiba mesmo, ainda mais que é verde também. Até hoje. Não é uma delícia ver o Giovanni Gionédis afundando o timinho na segundona? E hoje, tenho uma simpatia especial pelo Clube Atlético Paranaense, desde que não enfrente nem ao Londrina e nem ao São Paulo. E meu irmão, finalmente se curou desta doença chamada “ufanismo paranaense”, que a RPC (Rede Para Curitibanos) quer que tenhamos. Depois de ver tanta roubalheira passou também a ter nojo do Coritiba, dos times de Curitiba e tudo o mais.
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MUDANÇAS
Em meados de 1973, nossa casinha de madeira foi ao chão para dar lugar à nova casa de alvenaria. Que baita casa. Fomos morar na Rua Cambará esquina com Mato Grosso, onde depois foi a Polivel – Clínica Veterinária, e hoje é a Clínica do Dr. Jesus Ceribelli, enquanto a baita casa era construída. Como a vida tinha melhorado, fomos estudar no Marista (1974 e 1975). Na nova rua, moravam perto o Compadre Fontana, parente distante de meu pai. Ele tinha seis filhos, quatro homens. Os dois menores, assim como o pai eram são-paulinos. Os mais velhos, pelésistas, ops, santistas. No Marista, tinha o Vítor, Tricolor doente. O resto era tudo palmeirense e santista, na rua e na escola. Quase não se via corintianos, o que acredito era pela vergonha do jejum de títulos. Imaginem, naquela época uma criança nunca tinha visto o Corinthians ser campeão. Ia falar de futebol por quê? Certamente o que imperava ali era a vergonha. Tinham mais é que ficar enterrados num buraco, que nem tatu hehehe.
Mas daí comecei a vivenciar as discussões sobre futebol. Conheci a infame frase “que time é teu” e a invariável resposta “bateu na trave e entrou no teu”. E dá-lhe discussões sobre quem era melhor, quem ia ganhar. O Palmeiras tinha a tal Academia. Logo passou a ser o maior rival meu também, porque do Tricolor sempre foi. E como torcedor de time que ganha muito é chato. Eles eram terríveis. Meus amigos eram quase todos palmeirenses. Ô raça lazarenta de agüentar. O Palmeiras reinava quase absoluto. O Santos, sem Pelé, entrava no seu quase interminável fim de feira de quase trinta anos de duração (mais pra frente vou desmistificar algumas lendas sobre este timinho). Quando o São Paulo perdia pro Palmeiras, minha vida virava um inferno. Eles eram nojentos, arrogantes, implacáveis E naquele tempo era infernal, só dava o tal Verdão, a Academia. Mas as décadas de vacas magras e desonras esmeraldinas não tardariam a começar hehehe. Que deleite! Logo, logo chegaremos nelas.
Como ia ter a Copa da Alemanha, meu pai comprou uma tevê em cores. E a final do Brasileirão de 1973 foi, foi... Choque-Rei - São Paulo X Palmeiras. O empate bastava para o Palmeiras e o jogo foi 0 X 0 no tempo normal e na prorrogação. Pra piorar, meu irmão disse que o juiz tinha um despertador no bolso para acabar o jogo na hora, sem dar nada de acréscimo, que o juiz estava roubando pro Palmeiras. Que desespero... fim de jogo. Daí a imagem do Ademir da Guia comemorando e a música da Copa ao fundo: “...é a camisa 10 da Seleção, laiá, laiá, laiá, laiá,...” Eu chorando, corri pra tevê e dei uma cusparada na tela, em cima do “Divino” e esfreguei a mão. Gritava de ódio, achava que tinha sido roubado. Estava ferido de morte na minha alma Tricolor. Sabia o que viria pela frente, principalmente na escola. Meu pai e minha mãe sorriam ante a minha reação. Não de deboche ou descaso, mas por achar engraçado uma criança reagir daquele jeito. “Se alguém me encher o saco amanhã na escola, eu mato!” Que bosta, o São Paulo perdeu. Meu ídolo primeiro, Waldir Peres, derrotado justamente pelo Leão, aquele filho da puta que ainda por cima era o titular da Seleção, enquanto o querido Waldir era reserva. E meu pai sempre contava esta história de eu cuspir no Ademir da Guia para os outros, a vida inteira, quando o assunto era minha “são-paulinidade”.
Caramba, era o time do meu pai, o meu time então. Meu amor tinha sido ferido de morte. Que desgraça. Meu pai estava triste, imaginava (na verdade o fanático era eu, ele nem se lixava). Hoje sei que, nos primórdios, o amor ao clube era o amor ao paizinho querido. E eu nunca consegui falar isso pra ele. Mas como pai, acho que ele percebia, ou sentia. Minha devoção Tricolor, e a tudo que se referia ao São Paulo, era incontrolável. Eu era um verdadeiro alucinado pelo time, pelo clube, pelas cores por tudo que era correspondente ao melhor time do mundo para todo o sempre, amém. Ele era a razão disso e eu não conseguia por isso pra fora. Nunca consegui exteriorizar isso para o meu pai (“a lágrima é verdadeira”).
Um aparte sobre uma história do meu pai. Certa vez meu pai, um grande homem, me contou como ele, são-paulino, viu uma coisa que poucos torcedores viram. Eles estudava em São Paulo, vindo de Joaçaba, Santa Catarina, em um internato. Quando estava mais mocinho, um amigo dele atravessou a cidade e o levou até um canto distante do Centro. De lá do alto onde estavam, o amigo dele, que era são-paulino também, disse:
- Telmo, lá embaixo, lá onde tem aquele terreno alagado, o São Paulo vai construir seu estádio.
Eles deviam estar lá no alto, perto do atual Palácio do Governo paulista ou perto de onde hoje é o Hospital Albert Einsten.
Meu pai viu uma coisa que poucos são-paulinos viram: o lugar onde hoje se encontra o MAIOR PARTICULAR DO MUNDO, sem nada. Apenas um terreno vazio. Ele veio embora de São Paulo em 1956, e nunca foi ao Morumbi. Mas ele viu o estádio de perto quando meu tio morreu e ele foi ao velório do irmão, na ala judaica do Hospital Albert Einstein.
- De lá deu pra ver, filho.
Retomando. E como eu chorei naquela derrota do Brasil para a Holanda, na Copa de 1974. Culpava o Leão pelo primeiro gol. “Filha da puta (eu sei que o certo, nesse caso é filho da puta, mas eu falava como os moleques falavam, filha da puta), se fosse o Waldir Peres não tinha tomado este gol por cobertura. Nego ruim, tava adiantado, o Brasil perdeu porque o Leão, do Palmeiras, era uma bosta.” Sentiram o grau, né?! Culpei o Leão pela nossa derrota e passei quase que minha vida toda torcendo contra ele.
No Marista, tinha um menino que era torcedor do Internacional. Conversávamos bastante de futebol. Um zoava o outro. Um domingo, numa destas zebras homéricas, o Tricolor tomou um 3 x 0 do SAAD, desconhecido clube de Santo André, pelo Paulistão. Nossa, güenta sarro. Mas o São Paulo vinha bem na LIBERTADORES* e eu zoava o menino de volta. E por incrível que pareça, sabia que o Tricolor ia bem na LIBERTADORES, mas não sabia mais nada. Muito depois fui ficar sabendo que perdemos para os argentinos do Independiente.
*Obs: daqui pra frente, durante todo este texto, quando me referir ao principal torneio sul-americano de futebol, será sempre em negrito e maiúsculas para lembrar aos corintianos que seu timinho nunca ergueu esta taça e assim sendo, o torneio de verão da TRAFFIC/Rede Globo que eles ganharam em 2000, embora tenha erroneamente o reconhecimento da FIFA, não tem valor algum, principalmente pra quem sabe o que é dar três voltas olímpicas em Tóquio na condição de Campeão Mundial. É FA-JU-TO!!! Mundial de verdade é aquele em participam os campeões da temporada da UEFA e da CONMEBOL. O resto é perfumaria. E pra ser campeão da CONMEBOL, tem que ganhar a Copa LIBERTADORES da América.
Em 1975, já na casa nova, o São Paulo foi Campeão Paulista. Pobre Portuguesa. De volta à Vila Ipiranga, meu vizinho são-paulino ainda estava lá. Depois do jogo, que terminou quase às sete horas, minha mãe me mandou pra missa. Não tinha ido com eles, no sábado, e não pude ficar comemorando muito na rua. Subi correndo pra missa. Passei na casa do meu amigo, nos abraçamos e comemoramos. Saí correndo para a igreja Sagrados Corações, na esquina da Mato Grosso com a JK, com o punho cerrado e levantado. Foi meu desfile de campeão. Todo suado, que missa o quê? Estava em êxtase. No Marista...ah que segunda-feira! Eu e o Vítor perturbamos geral (torcedor de time que ganha é chato, arrogante... ah, já falei isso, né?!). Eu e meu amigo Colorado do Colégio Marista comemoramos naquele ano os nossos títulos: eu Campeão Paulista, ele Brasileiro.
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O TRICOLOR EM LONDRINA
Em 1976, voltei a estudar no Hugo Simas. Nada de novo no front. Mas reprovei a 7ª série. E o Londrina ganhou uma vaga no Campeonato Nacional. Que maravilha, os grandes times viriam até aqui. A inauguração do Estádio do Café foi demais. O nosso freguês Flamengo iniciaria ali o seu tabu de nunca, jamais, never, ter derrotado o glorioso Tubarão em Londrina. E lá se vão trinta anos. Depois os jogos do campeonato. E não é que o São Paulo caiu na chave do Tuba Tubão?! Meu pai pegou meu irmão e eu, pôs no carro e fomos pro Café. No caminho recomendações para não nos manifestarmos pelo São Paulo. Medo de encrenca, confusões, aquelas coisas de ignorantes em campo de futebol. Que nada, imagina que eu não ia torcer desesperadamente para o Tricolor. No Estádio, só três pessoas assumidamente torcendo pelo São Paulo: eu e dois outros londrinenses que ostentavam, cada um, uma bandeira do Tricolor, mais ou menos perto da gente. Fui junto com meu irmão conversar com os dois antes do começo do jogo. Eles estavam meio ressabiados, temerosos, mas assumiam o amor ao clube. Um deles era funcionário, salvo engano, do Iate Clube.
A cada ataque do São Paulo eu ia levantando... “vai, vai...uhhh”. E meu pai me segurava, me puxava pra sentar. “Cala a boca, moleque, senta aí que ainda vão tacar mijo na gente”. Um vendedor de Saci (quem de Londrina não lembra do Refresco Saci, vendido em saquinhos hermeticamente fechados e que tinha aquele canudinho embutido?!) dizendo: “é só pagar que eu mesmo jogo refresco naqueles dois”. “Que lixo! Só podia ser corintiano, palmeirense ou santista, o filho da puta”. No final, um 0 X 0 que valeu por vermos de perto os jogadores Tricolores que logo iam nos dar alegrias. Que satisfação ver o Waldir Peres, o Chicão, Arlindo, Dom Pedro Rocha... todos jogadores do meu time de futebol de botão.
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O MENINO FUTEBOL
Fiz de novo a 7ª série em 1977 e fui tão bem que mesmo saindo de licença médica no último bimestre, por conta de uma hepatite B, passei de ano. Doente em casa, de repouso absoluto, mergulhei de cabeça no futebol. Meu pai me comprou uma tevê Philco portátil, daquelas tipo bolinha, amarela (minha cor preferida). Deveria ficar em repouso absoluto por 60 dias. Ficava isolado no quarto, deitado dias e noites sem fim, sem visitas. Esperava contando as horas para chegar domingos de tarde e quartas-feiras de noite para ver futebol na tevê. Tudo que eu usava era separado. Tudo que eu tocava era esterilizado. Sem amigos, sem papai, sem mamãe, sozinho, sem ninguém. Imagina um garoto que gostava de jogar bola da hora que levantava até a hora de ir dormir, 13 para 14 anos, de repouso absoluto, sem um amigo pra conversar. Pensava apenas em correr, jogar futebol, mas não podia. E modéstia à parte, eu era bom de bola, hein?! Por conselho de meu pai, chutava com as duas e bem e forte. Tinha dois canhões nos pés. Onde eu acertava a bola, não nascia mais cabelo. Fiquei quase dois meses, deitado, tomando chá de picão (arrgh! E aquela droga de chá de picão não é remédio merda nenhuma, é lenda de matuto pra curar “tiriça” ou icterícia e nem isso faz) apenas pensando em futebol. Quando pude sair para a vida normal novamente, voltei para a cama porque depois da alta logo fui jogar bola e tive uma recaída. Era pra ficar seis meses sem atividade física e eu não quis nem saber, fui correr atrás da bola.
E pra tristeza do Brasil, o Corinthians finalmente saiu da fila. Vinte e três anos de humilhações terminavam com a ajuda do árbitro Dulcídio Wanderley Boschilla que conseguiu expulsar o atacante Rui Rei, da Ponte Preta, com menos de dez minutos de jogo, na finalíssima. E no ano seguinte, Rui Rei era jogador do Corinthians. Coincidência, não?! Algum desavisado pode pensar que a MSI já era parceira do Corinthians desde aqueles tempos. Detalharei isto em momento oportuno mais adiante.
Meu pai e meu irmão iam ao campo ver o Londrina no Brasileirão de 1977. Eu ficava em casa doente, ouvindo pelo rádio. Quando não passava jogo na tevê, ficava grudado no rádio. Depois ouvia os comentários, as análises, o balanço esportivo com todos os resultados e alguns detalhes, até a programação esportiva acabar (e infelizmente uma hora acabava). Era futebol, futebol, futebol, futebol... Também acompanhava o futebol pela Folha de Londrina e ainda me traziam as Revistas Placar. Eu sabia tudo, de todos os times. Elencos, titulares e reservas. Nomes de juízes, nomes de estádios, em que ano cada clube havia sido campeão estadual e nacional, contra quem foram as finais, os resultados. Conhecia o campeonato (e os campeonatos) na palma da mão, os resultados de todas as rodadas, quais os próximos jogos, quem podia ou não jogar, quem estava suspenso, contundido, tudo, tudo, de fio a pavio. Eu era completamente futebol.
Como o calendário do nosso futebol era uma aberração, o Campeonato de 1977 foi terminar em 1978. Pra coisa ficar mais dramática, o Tubarão Tuba Tubão, depois de uma epopéia na repescagem, se classificou. E foi seguindo no campeonato, que foi afunilando, e o Tuba Tubão foi indo, foi indo... desclassificou o nosso eterno freguês Flamengo, o Santos, o Vasco, o Corinthians e o Caxias e chegou à semifinal. A estas alturas, eu já estava curado da hepatite, e fui ver o Flamengo ser humilhado, com Zico e tudo, pelo Tuba Tubão. Um a zero, gol de Zé Roberto, do meio da rua, pobre Cantarelli. Dois primos do Rio estavam de férias nos visitando. Retribuímos a visita e fomos de volta com eles ao Rio de Janeiro. Lá ficamos até o último jogo do Londrina, a batalha de São Januário.
Minha tia não deixou a gente ir ao jogo, pois desde aqueles tempos, os filhos dos padeiros portugueses já tinham por hábito agredir os torcedores visitantes. E também porque voltaríamos a Londrina naquele dia, à noite. Não daria tempo de ir a São Januário, voltar à Tijuca pra pegar as bagagens e depois ir para o Terminal Rodoviário Novo Rio. Mas o Tubarão enfiou 2 x 0 nos bacalhaus e se classificou para as semifinais. Conheci o Maracanã assistindo ao “Clássico dos Invictos” daquele ano: Botafogo (time dos meus primos) X Atlético/Mg. A torcida do Atlético ostentava uma faixa enorme: “Cerezão Brasileira”. Zero a zero que valeu por ver o Jairzinho jogar. Mas me decepcionei com o Maracanã também. Achava que era muito maior que aquilo que estava vendo. Entrei e de cara disse: “É pequeno”. Meus primos me olharam como se dissessem: “Em Londrina tem um maior?” Mas sério, pensava que era muito maior do que aquilo, que cairia de costas ao ver o maior do mundo (público!). Acho que é porque pela Tevê falam tanto do Maracanã que entrei pensando que fosse ver uma coisa que me faria cair o queixo. Depois ainda fui ver, pela chave do Londrina, o Flamengo empatar em 1 X 1 com o Caxias.
Naquele dia, quando saímos do Rio, nosso ônibus de linha encontrou-se, na saída da cidade, com os ônibus da TOL (Torcida Organizada do Londrina). Que festa, as mesmas paradas na estrada, todo mundo feliz. No Estado de São Paulo então... nossa!! Como fomos saudados pelos paulistas. Afinal, eliminamos um carioca. Um não, dois, porque o Flamenguinho, com Zico e tudo, também comeu poeira do Tuba Tubão hehehe. Aliás, Zico só foi saber o que era vencer o Tubarão uma única vez na vida. Foi num jogo em Maringá, por um torneio amistoso para arrecadar fundos para a família do jogador Valtencir, que perdeu a vida tragicamente ao quebrar o pescoço depois de um choque com o Nivaldo Carneiro (comentarista da RPC) num jogo entre o Grêmio de Maringá e o extinto Colorado, em Maringá, pelo Campeonato Paranaense, acho que de 1978 ou 1979.
O Londrina nas semifinais, justamente contra o único invicto do campeonato, o Galo Mineiro. Partidas de ida e volta. A primeira lá, a segunda em Londrina. O Tubarão perdeu a primeira e empatou a segunda. Estava fora, graças a Deus, da final. Na outra perna das Semifinais, São Paulo e Operário/Ms. Deu Tricolor, por isso o graças a Deus do Londrina ter ficado fora. A decisão seria então entre os dois grandes e eu não confrontaria meu coração são-paulino com a minha “londrinice”. Um jogo só, em Belo Horizonte. Meu Deus, imagina a minha agonia.
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O COMEÇO DAS GRANDES GLÓRIAS
Na minha turma, 8ª Série E, do Hugo Simas, estudava um cruzeirense, o Gualter, que é meu amigo até hoje. Este me atormentou. Passou a semana inteira chamando o São Paulo de “time de barrigudos”, que não agüentariam os mineiros, nem o Mineirão lotado. Não me lembro de haver mais nenhum são-paulino no colégio. Não que eu conhecesse, que pudesse dividir a angústia. Na classe, tinha ainda o Edcésar, corintiano, todo prosa pela quebra do tabu contra a Ponte Preta. Fora os palmeirenses que, coitadinhos, os malditos ainda não haviam compreendido que o tempo de vacas magras (que o bom Deus permita que nunca acabe) tinha começado, que me alugavam também. E como alugavam, eles eram a maioria. E pra completar ainda tinha os pelésistas, ou Santistas. Era eu sozinho contra o mundo. Só tinha aliados na rua. Meu vizinho Nenê e seu primo Sérgio, que morava a quatro quadras de casa, mais o Rolemberg, este extremamente fanático até hoje, que também morava mais distante, próximo ao Sérgio, nas imediações da Praça do Aleijadinho, lá no começo da Avenida Rio de Janeiro..
E para piorar a situação, o meu maior ídolo, até hoje inclusive, do São Paulo, o centroavante Serginho*, não ia poder jogar. Ele estava suspenso porque tinha dado um chute na canela de um bandeirinha filho da puta, em Ribeirão Preto, num jogo contra o Botafogo de lá. Pra compensar, Reinaldo, o centroavante do Atlético Mineiro, também estava suspenso e não poderia jogar. Elas por elas, mas o São Paulo ficava em desvantagem porque o Atlético tinha um time muito forte, estava invicto e jogava em casa.
*Vou falar mais do Serginho ainda.
Aquele domingo foi dramático. Começamos o dia num churrasco, às margens do Rio Tibagi, em Jataizinho, no sítio de um amigo de meu pai. Ansioso o dia inteiro, quando deu umas três da tarde comecei a encher meu pai pra irmos embora. Queria estar em casa, no meu canto, torcendo. Estava uma pilha. Voltamos para casa e eu nervoso, muito nervoso, a beira do desespero. Meus pais me pedindo calma. Como calma? Não viam que era o dia mais importante da minha vida?
Começa o jogo. Quem vencesse era campeão. Se desse empate, mais trinta minutos de prorrogação. Persistindo o empate...PÊNALTIS!! E bola correndo e unha roendo e nervosismo absorvendo. Os comentaristas nunca eram favoráveis ao São Paulo. “...e porque o Atlético merece, é o único invicto” e coisa e tal. O Atlético realmente tinha um timão. João Leite, Toninho Cerezo, Ângelo, Marcelo, Ziza, Reinaldo, etc. De repente, o Neca dá uma solada no joelho do Ângelo. Coisa criminosa. Quando a tevê dá um close no Ângelo engatinhando se remoendo de dor para ser atendido, o Chicão lhe pisa a sola da chuteira. Pobre Chicão, levou por anos a fama de açougueiro. Mas quem ferrou com o Ângelo foi mesmo o Neca.
E foram 90 minutos de puro sofrimento. O São Paulo não podia tomar gol. Eu mesmo achava que o Atlético estava mais forte, ainda mais jogando em casa. Torcia para o jogo acabar empatado pelo menos. Que se o São Paulo perdesse, que fosse nos pênaltis, mas nunca na bola correndo. Teria um argumento contra os desgraçados: “pelo menos o São Paulo não perdeu o jogo, o Galo só levou nos pênaltis”. Fim de jogo, 0 X 0. Prorrogação. Que sufoco, mais trinta minutos de agonia. Acaba jogo, acaba, pedia desesperadamente em pensamento. E acabou: 0 X 0.
“Bom - pensava - chegamos até onde eu queria”. Pênalti é pênalti, ninguém é de ninguém. Sou mais Waldir Peres. Afinal, ele já havia decidido no Paulistão de 1975, contra a Portuguesa, catando pênaltis. E o Atlético estava desolado. Jogaram a final durante 120 minutos perante sua torcida e não conseguiram nada, a não ser tentar a sorte nos pênaltis. O Mineirão começou a sentir a derrota. Batendo pênalti ninguém é de ninguém.
Primeira cobrança, a cargo do São Paulo: Getúlio. Pra fora! “Puta que o pariu, não é possível, chegar até aqui, tão difícil e entregar, não, não é possível”.
Vai o Atlético para sua primeira cobrança. Waldir Peres faz sua catimba, fala alguma coisa para o Cerezo. Ele corre e...pra fora! “uaaahhh uaaahhh, estamos vivos. Iuhuuuu!!! 0 X 0, ninguém é de ninguém. Vamos Tricolor, vamos lá, estamos no jogo”.
Segunda cobrança do São Paulo: Chicão. Foi bater, meio que escorregou e e... “puta que o pariu, este filho da puta do João Leite defendeu”.
Segunda cobrança do Atlético: Ziza. Waldir Peres deu sua azucrinadinha de leve. “Erra, erra filha da puta... puta que o pariu. Fez”.
Um a zero para eles, duas cobranças pra cada lado. O São Paulo não podia perder mais nenhuma. Nada era fácil, nada nunca foi fácil pro Tricolor.
Terceira cobrança do São Paulo: Peres. “Não erra, não pode errar”. Ele correu, fuzilou... gol. “Gol, gol, gol, vamos São Paulo. Ainda dá, vamu lá Tricolor”. Urrava de doer a garganta.
Terceira cobrança do Atlético: Alves. “vai errar, filha da puta, vai errar”... Gol dos homens. “Caralho, gol dos filha das puta”.
“Meu Deus, 2 X 1 pra eles e só mais duas cobranças pra cada lado. Meu Deus... vamos São Paulo, vamos time. Tem que ser campeão. Fé, fé, vamos São Paulo, vamos”.
Quarta cobrança do São Paulo: Antenor. “vai lá Antenor, vai lá, num erra não, vai... GOOOLLL, GOOOLLLL, GOOOLLLL. Valeu Antenorzinho querido. GOOOLLL, GOOOLLLL.”
Quarta cobrança do Atlético: Joãozinho Paulista. Catimba do Waldir “Herói” Peres. Correu, bateu e... “PRA FORAAAAA! ERROU, PRA FORAAAA! Tá empatado, empatou, empatamos, ainda estamos vivos. Ninguém é de ninguém”.
Nesse momento, 2 X 2 nos pênaltis. Ninguém era de ninguém, ainda. Mais um pênalti para cada lado. Uma sensação de conforto percorreu meu corpo. Rouco de tanto gritar, chorando muito, de emoção, de medo, de dó de mim mesmo, de amor ao São Paulo, chorava muito, de entupir as narinas. Senti que o São Paulo ia ser campeão, mas não tinha toda aquela certeza. Quando sinto estas coisas, nunca falo pra ninguém, que é pra não dar azar. Não falei pra ninguém na sala.
E Deus?? Deus sabia que eu batia uma punheta todo dia. As vezes duas ou mais. Ele sabia que há muito eu não comungava, por conta disso mesmo. Ele sabia que fazia tempo que eu não me confessava. Ele sabia que eu não prestava atenção na missa, apesar de estar lá todo fim de semana. E eu sabia de minha dívida com Deus. Mas senti que Deus não ia me judiar tanto. Apesar dos pesares, ninguém merece sofrer tanto. Deus não é um cara ruim, afinal!
Decisões por pênaltis são apoteóticas, emocionantes, fantásticas. Sempre gostei de decisão por pênaltis. É o equivalente a uma decisão com trânsito em julgado no STF. É o supra-sumo, o clímax. Todo campeonato deveria acabar nos pênaltis.
Quinta cobrança do São Paulo: Bezerra. “Vai Bezerra, vai lá. Se você fizer, eu fico um ano sem comer carne de bezerro”. Ao ouvir isso meus pais riram. “Pelo amor de Deus, não erra, não”. Falei isso já entregue, de joelhos, olhos cheios de lágrimas, extremamente emocionado, nariz escorrendo. Bezerra corre pra bola, finca o pé na danada e... “GOOOLLL, GOOOLLL, GOOOLLL, meu Deus, obrigado. GOOOLLL”.
Fiquei ali no chão mesmo, ajoelhado, chorando e olhando pra tevê. Vi o Márcio, último batedor do Atlético, arrumando a bola. Waldir Peres, ah Waldir Peres, como sou teu fã, como lhe sou grato, Waldir Peres rindo fala algumas coisas para o Márcio. Volta para baixo das traves, Márcio se afasta e espera o árbitro autorizar.
Quinta cobrança do Atlético: Márcio. 3 X 2 para o Tricolor. Se ele fizesse, não tinha problema, estaria empatado e o São Paulo ainda não teria perdido o campeonato. Se ele errasse...puta que o pariu, era a glória total.
Arnaldo César Coelho apitou autorizando a cobrança. Luciano do Valle falou: “autorizado. Correu Márcio...” Nesse instante comecei a pular girando os braços e gritando: “ERROU, ERROU, ERROU, ERROU, ERROU, ERROU...”
E não é que ele errou mesmo. Aquele frio na barriga, aquele grito contido por mais uns dois segundos, para ter certeza... “ERROOOOOOOUUU, FILHO DA PUTAAAA!!! SÃO PAULO CAMPEÃO. CAMPEÃO, CAMPEÃO, CAMPEÃO, CAMPEÃO!!! FALA AGORA SEUS FILHA DAS PUTAAAA!!! CAMPEÃO, CAMPEÃO”. Agora não tinha mais “ninguém é de ninguém”. O título era Tricolor!!!! Eu era campeão, tá entendendo?! Campeão, simplesmente campeão e todo mundo ia ter que me aturar.
Pulei, gritei, soquei o ar, chorei urrando de alegria até levar uns “chacoalhões” de meu pai para me tirar do transe e do estado de torpor com os olhos vidrados, a beira de um colapso em que quase entrei, quando o Márcio chutou o último pênalti por sobre o travessão do Waldir Peres (que ganhou aquela disputa na catimba, pois não fez uma única defesa de pênalti nas cobranças). Os jogadores do Atlético fizeram uma fila, lado a lado e abraçados saíram chorando de campo. Num close, a tevê mostra um torcedor do galo, com uma faixa de campeão na testa, esfregando a mão na cabeça e dizendo “puta que o pariu” (deu pra ler nos lábios), enquanto os jogadores do São Paulo festejavam esfuziantemente aquela façanha. Corri pra rua, arrombei (eu tinha as manhas) o Opalão do meu pai e soquei a mão na buzina. Daí fiz meu pai sair na rua para desfilar como campeão e buzinar para todos os palmeirenses, santistas e corintianos filhos das puta nos ouvirem. Foi demais de bom!!
E que gostoso então que foi a segunda-feira na escola. Sentir o despeito de todos os desgraçados. A inveja e a indignação imperando entre os inferiores e desprezíveis hehehe. Que gostoso ouvi-los dizendo que tinha sido injusto, que quem merecia mesmo era o Atlético porque estava invicto, que se fosse o Atlético pelo menos o Londrina teria sido desclassificado pelo campeão, que o Chicão era um assassino e todas as sandices possíveis. Muito bom. Muito bom mesmo, apenas olhar, ouvir, sorrir e gritar na cara dos ratos malditos: É CAMPEÃO!!!!! Hehehe
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SÉRGIO BERNARDINO
http://www.tricolormania.com.br/serginho.asp
http://www.independentenet.com.br/4rt8s1fgw7asd/index_principal.php?area=idolos/ser_chulapa
Quem como eu é são-paulino das antigas, deve ter tido um monte de ídolos no clube. Aquele jogador em que você torce especialmente por ele. Eu tive muitos. O primeiro foi Pedro Rocha, depois Waldir Peres, Zé Sérgio, Oscar, Dario Pereira, Ailton Lira, Pita, Careca, Muller, Raí, Lugano, Zetti, Rogério Ceni, Luis Fabiano... Em cada fase do São Paulo, desde os anos 70 quando acompanho o time, tive ídolos. Para não ser injusto com todos, todos estes que citei e mais alguns que eventualmente tenha esquecido por ora, estão em segundo lugar rigorosamente empatados.
De cara assumo que para mim o maior deles até hoje, o primeiro e insubstituível é Sérgio Bernardino, o Serginho, o Serginho Chulapa. Assim como não sei explicar o porquê torço desesperadamente pela Portela no Carnaval, não sei ao certo o motivo desta minha admiração especial por ele. Que camisa 9 ele foi. Serginho nunca foi, como os demais ídolos, um são-paulino. Declarou-se torcedor do Santos, trabalha no Santos e é um dos poucos ídolos que não visitam o São Paulo. Independente disso, nunca deixou de ser o meu maior ídolo. Era briguento, do tipo que entrava, era provocado e não levava desaforo pra casa. Era o bad-boy dos anos 70 e 80. Mas um Santo a ser canonizado se comparado com Edmundo, Marcelinho Carioca, Paulo Nunes e outros asquerosos e arrogantes ídolos da inferioridade. Serginho era perseguido e estigmatizado pela crônica palmeirense e corintiana (na maioria). Era queimado de tudo quanto era jeito. Era o Diabo, o bandido. Mas sempre estava lá, firme, marcando gols e mais gols pelo São Paulo.
Era um bom coração também. Certa vez estava com amigos indo a um restaurante almoçar quando um menino de rua, negrinho, lhe pediu esmola. Levou o menino para almoçar com eles. No primeiro restaurante se recusaram atender o mendigo mirim. Serginho não teve dúvidas, levantou-se e foi a outro restaurante. O menino almoçou com eles na mesa. Em outra oportunidade, seu irmão, Kojak, que trabalhava na Polícia Civil, bateu com a cabeça de um deputado contra o pára-choque de um veículo. A notícia foi destaque no Jornal Nacional. Serginho que estava concentrado no hotel com o time para um jogo dali a pouco, afundou-se na poltrona. Em campo, não ficou nem cinco minutos. Foi expulso rapidinho. Era temperamental, explosivo, mas era matador, artilheiro nato, alegria da torcida. Seus feitos no Tricolor TRI MUNDIAL são históricos. Fazia gols de tudo quanto era jeito. Era irreverente, desengonçado, trombador, mas era matador, artilheirão. Foi Serginho um dos primeiros a instituírem as famosas “peladas” beneficentes de final de ano, que levantavam fundos para instituições de atendimento a crianças carentes, e as irreverentes “peladas” do Carnaval, quando todos os jogadores convidados a participar tinham que jogar de peruca e vestidos de mulheres.
Quatro coisas me marcaram na passagem de Serginho no São Paulo. A primeira é triste: Ele não está no pôster de Campeão Brasileiro de 1977. Chutou a canela de um bandeirinha em Ribeirão Preto, naquele campeonato, e pegou mais de um ano de suspensão. O São Paulo bem que tentou, mas efeito suspensivo era coisa que só o Vasco e a Ladralat conseguiam. Reinaldo, artilheiro do Atlético Mineiro estava suspenso também e aquela final de 1977, disputada em 1978, foi uma pena por não confrontar dois grandes artilheiros, dois grandes estilos. Seria um formidável tira-teima entre artilheiros.
A segunda foi um gol que ele fez no Palmeiras aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação pelas semifinais do Paulistão de 1978. O goleiro do Palmeiras na época, Gilmar, deve ter pesadelos até hoje com aquele gol antológico. Um minuto antes, Zé Sérgio cabeceou uma bola no chão, bem no cantinho e Gilmar se espichou todo e de ponta de dedos pôs a escanteio. Meu pai, lembro como se fosse hoje, falou:
- Não dá. Esta foi a chance, o goleiro dos homens é bom.
Eu já estava vivendo a angústia da segunda-feira, pois todos os palmeirenses e santistas (que fariam aquela final se o São Paulo não passasse) da minha sala me encheriam o saco. Foi quando, no apagar das luzes, a bola é levantada na área. Final da prorrogação. Serginho, posicionado mais ou menos entre a marca do pênalti e a linha da grande área, mas mais próximo da linha da grande área, sobe e disputa a bola de cabeça com um zagueiro do Palmeiras. A bola vem e ele meio que de costas, meio que de lado, atinge a pelota no cocuruto. A bola caprichosamente subiu, descreveu uma elipse, e foi no ângulo se aninhar no fundo das redes. Gilmar até que foi na bola, mas ela foi tão despretensiosa, tão venenosa por isso mesmo, que foi um “gol espírita”. O goleiro embelezou mais ainda o gol com uma “ponte” espetacular. Lembro que prendi o fôlego e fiquei paralisado. Só fui soltar o grito de gol, uns três segundos depois, quando a televisão cortou a imagem para o Serginho que corria comemorando o gol salvador. Foi inacreditável, do jeito que foi, na circunstância que foi. A segunda-feira foi minha. Que orgulho, Serginho, o odiado, era o herói daquela pequena nação que se agigantaria nos anos seguintes como fãs de um grande esquadrão sempre campeão.
A terceira foi uma surra que ele deu em quase meio time do Corinthians (eu sei que vai aparecer um monte de gambá contestando, mas quem viveu viu e lembra) num “Majestoso”, numa quarta-feira à noite, em que o São Paulo, que ganhava por 2 X 0, acabou cedendo o empate e mantendo o tabu de não vencer um clássico (contra Santos Palmeiras e Corinthians) há mais de dois anos. Nervoso, ele chutou uma bola, que ainda estava dentro do campo, portanto em jogo, pela lateral, em cima do banco dos gambás. Deu uma bolada nos caras, literalmente falando. Carimbou os jogadores do banco, que deviam estar provocando. Nada era de graça. Os coitadinhos dos reservas do Corinthians, ofendidos com a bolada, quiseram embaçar. Pobrezinhos, esqueceram com quem estavam lidando. O pau começou lá mesmo, na lateral do campo e se generalizou. Quase todo mundo brigou. Quase todo mundo bateu e apanhou. Serginho só bateu. Pra cima de quem ele partiu, saiu correndo. E de orelha quente. Foi um deleite, apesar de que acho que não tem nada a ver violência no futebol. Mas em se tratando de Corinthians e com o agravante de que foram eles que começaram, a surra foi justa. E olha que ele era o alvo, o jogador a ser agredido. Bateu e pôs pra correr todo mundo que achou que poderia conseguir alguma coisa. Serginho era um tanque de guerra.
Por fim, o que me marcou Serginho como um grande ídolo, foi o chute que ele deu na testa do Leão, que caiu simulando uma agressão. Era a final do Brasileirão de 1981, no Morumbi, contra o Grêmio. Serginho foi tachado de tudo quanto era jeito. Marginal e delinqüente foram as coisas mais comuns que se falou a seu respeito. Só não falaram que ele sofria de hemorróidas e toda vez que atacava, quando virava de costas para Leão, para voltar para o meio campo, Leão lhe dava uma bicuda no meio da bunda, despercebidamente. Perdendo a final em casa, no final do jogo, Serginho entrou e dividiu uma bola com Leão, que fez a maior cena e caiu, tipo desmaiado no chão. Cera pura para matar o tempo. Serginho foi imediatamente expulso. Voltou até Leão, que continuava caído fingindo contusão, meio que se abaixou para se desculpar e deu um totó com o bico da chuteira no supercílio do farsante. Foi demais. Aquilo abriu e começou a sangrar. Eu não gosto de violência no futebol, mas em se tratando de um goleiro desagregador na Seleção Brasileira, extremamente personalista, culpado pela desclassificação do Brasil na Copa de 1974, ex-jogador do Palmeiras, que estava ganhando um Campeonato Brasileiro do São Paulo em pleno Morumbi, aquilo foi justo, muito justo hehehe. Ao final do jogo, o Grêmio foi campeão e quando todos os jogadores comemoravam, Leão fazia pose para a imprensa, estirado na grande área, como se tivesse desmaiado. Era seu marketing para a Seleção Brasileira que seria convocada dali alguns dias para a Copa da Espanha, no ano seguinte. O melhor de tudo é que não adiantou. Mestre Telê convocou Serginho, pois via nele o grande matador e artilheirão, e não chamou Leão. Fez melhor, chamou Waldir Peres. Pra quem contesta, os especialistas são unânimes em afirmar que a Seleção de 1982 foi uma das melhores em todos os tempos, embora não tenha vencido a Copa. Alguns vão além e dizem que ela é superior à de 1970.
Serginho, por todos os seus gols, todos os seus ímpetos, era quem fazia um dos únicos são-paulinos da escola e da rua orgulhar-se nas segundas-feiras. Tem lugar cativo na sala de troféus e glórias do meu coração. Um dos atacantes mais guerreiros da história do futebol brasileiro, quiçá mundial. Foi campeão Paulista em 1975, 1980 e 1981 pelo São Paulo, além de campeão Brasileiro em 1977. E foi quem impediu um tricampeonato do Corinthians em 1984, ao marcar o gol da vitória do Santos naquela final. Por tudo isso, por ser o maior artilheiro da história do São Paulo, com 242 gols, dos quais eu certamente vi quase todos é que Serginho não sai jamais do meu coração, das minhas gloriosas lembranças. É meu maior ídolo no Tricolor TRI MUNDIAL. E ninguém tira isso dele.
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OS PORQUINHOS PAGAM SEUS PECADOS
Já o ano de 1978, foi fantástico também. Por que o São Paulo ganhou alguma coisa? Não, porque foi o ano que um pequeno verde desbancou o Verdão, fez o Verdão virar verdinho. O Palmeiras perdeu o Brasileirão de 78 para o Guarani. Que coisa formidável! Capitão, Renato, Careca, Bozó, Miranda, Zenon, quantos craques de bola! E o melhor de tudo: Neneca, um londrinense, no gol. E melhor ainda: Leão fez a lambança e entregou o título de bandeja para o Bugre, ao dar uma cotovelada na nuca do Zenon no primeiro jogo da final, no nosso salão de festas. Daí um pênalti sem goleiro para o Guarani. Sem goleiro porque o Palmeiras não podia mais fazer substituições e Escurinho foi para o gol apenas para buscar a bola no fundo das redes depois da cobrança do Careca. É certo que o Tricolor perdeu o Campeonato Paulista para o Santos, outro time que pagou caro pela arrogância de seus velhos torcedores (sim, porque se tem uma coisa que aconteceu com a torcida do Santos foi envelhecer. Sabe como é, time que não ganha, a torcida vai envelhecendo, não surgem novos torcedores). Mas o Palmeiras...hehehehe!! Foi lindo aquilo, vê-los se considerando campeões brasileiros por antecipação só porque a decisão era contra um time do interior.
E o inferno astral da porcada estava apenas começando. Seriam 16 anos de filas, vergonha e até rebaixamentos. Disputaram a Taça de Prata de 1981 e numa manobra da Confederação foram levados de volta à 1ª divisão no meio do campeonato ainda. http://paginas.terra.com.br/esporte/rsssfbrasil/tables/br1981l2.htm
Pra quem discorda, lembro que o Londrina foi campeão da mesma Taça de Prata um ano antes e só foi disputar a Taça de Ouro no ano seguinte.
http://paginas.terra.com.br/esporte/rsssfbrasil/tables/br1980l2.htm
O Paulistão de 1986 então foi espetacular. A Inter de Limeira, outro time de interior, passou por cima do verdinho em pleno Morumbi (eles adoram passar vergonha em nosso estádio). “Recordar é viver, Kita e Lê acabaram com vocês”. Eu me lembro até que alguns palmeirenses ilustres, como o Joelmir Beting, montaram o GAP (Grupo de Apoio à Presidência), para levantar fundos e ver se o clube se recuperava. Mas que nada, o Palmeiras estava em desabalada carreira ladeira abaixo. A arrogância da torcida deu lugar à vergonha, às lágrimas hehehe. Era muito bom ver aquilo. Mas o melhor ainda estava por vir.
Diante da maré baixa, eles foram ficando revoltados. Nos anos 80, não sei ao certo em qual temporada, mas vendo a hegemonia do São Paulo que foi o Campeão Paulista da Década (80, 81, 85, 87 e 89) e diante de mais um ano de fracassos, a torcida Mancha Verde destruiu a sala de troféus do clube. Entre as Taças destruídas estava aquela do torneio de 1951 que hoje eles estão juntando documentação para pedir à FIFA que homologue aquele torneio como um Mundial de clubes hehehehe. Em campo, não foram capazes na chance que tiveram, amarelaram para os ingleses canelas duras do Manchester, em 1999. Pela primeira vez, os inventores do esporte bretão foram Campeões Mundiais de Clubes porque os arrogantes incompetentes não foram capazes de trazer este título para a América do Sul e para o Brasil.
Agora, querem que vire Mundial um título de torneio consolação, em 1951, visto que o Brasil havia perdido a Copa em casa um ano antes. Também pudera, até os gambás se dizem campeões mundiais (repararam que eu pus em minúsculas?). Dos considerados grandes de SP, eles são os únicos que não podem dizer isso, embora o título do torneio amistoso do timinho da marginal será eternamente zombado, caçoado, ridicularizado e desprezado por quem já venceu um Mundial de verdade. (quando falar deste repugnante timinho, destruirei o pretenso orgulho corintiano com esta taça de merda). Querem uma conquista mundial a qualquer preço, nem que seja recorrendo ao passado, quando nem eram nascidos e muito menos ainda estavam sequer nos sacos de seus pais em forma de gametas masculinos hehehe. Nem porra eram ainda hehehe. Já pensou se a FIFA caga de novo e homologa este título?! Que delícia vai ser ouvir a porcada dizendo: “somos os primeiros campeões mundiais!” “E daí, você viu??? Hehahehahihehihohehehihahaha”. É muita mediocridade. Não conse
Publicado em 20 de fevereiro de 2007 às 03:49 por silvio
Clássico é clássico e vice-versa, acabo de ler o seu post-livro, um clássico da literatura futebolística, da emoção e do humor.
É o livro mais legal e completo que li sobre a história do SPFC.
Parabéns Silvio São Paulo Fontana.